‘Zico: O Samurai de Quintino’ retrata origem de ídolo do Flamengo

Documentário de João Wainer desloca olhar para formação que moldou o craque rubro-negro e o tornou referência no Japão

Quando Zico chega ao Kashima Antlers, em 1991, os japoneses passaram a reconhecer nele uma espécie de ‘majime’, termo local para designar alguém sério, trabalhador e honesto. O tipo de identificação que diz mais sobre quem foi Arthur Antunes Coimbra do que qualquer outra estatística. João Wainer parte dessa percepção para construir ‘Zico: O Samurai de Quintino’, um documentário que entende o jogador como produto de uma formação anterior ao esporte.

‘Zico: O Samurai de Quintino’, documentário sobre ídolo do Flamengo, está em cartaz nos cinemas (FOTO PETER WREDE)

Trajetória que começa na Zona Norte do Rio, onde Zico cresceu em uma família que cobrava estudo e comportamento com a mesma seriedade que ele se portaria no futuro como atleta. Wainer estabelece o argumento de que o caráter de Zico não veio do futebol, e sim que o esporte encontrou em Arthur um homem já formado. A caminhada do menino ao jogador é a que o longa escolhe percorrer e, sempre que permanece fiel a esse propósito, alcança seus melhores momentos.

A dimensão íntima do ídolo

Sandra, esposa de Zico há mais de cinco décadas, ganha protagonismo, em especial nas cenas em que a dimensão pessoal é acessada. Pelos relatos dela e dos filhos, o diretor adentra os bastidores da figura pública sem deixar de mostrar que aqueles que viveram ao seu lado também pagaram um preço pela fama. Para evitar o tom publicitário, a obra confere o mesmo peso tanto às derrotas quanto às vitórias. Zico fala sobre esses episódios com sobriedade, sem esconder as marcas deixadas por eles.

Estrutura irregular

Por outro lado, é difícil não se incomodar com as passagens que ficam vagas ao longo do percurso. A estrutura não-linear adotada faz com que a narrativa siga por um caminho caótico, sem clareza quanto ao ponto que pretende chegar. Torna-se um constante vai e vem, com poucas justificativas para tal, que atribui peso a elementos menores enquanto passa rápido por outros mais relevantes para o conjunto.

O legado no Japão

Em solo asiático, Zico encontrou no Kashima um clube ainda amador, e levou consigo uma nova mentalidade de trabalho que contribuiu para modernizar o futebol no país. Contudo, ao observar as origens, sua escolha deixa de parecer improvável. Zico abriu mão do conforto de um ídolo consagrado para ajudar a desenvolver a cultura futebolística em um lugar onde o esporte ainda buscava espaço. No fundo, o garoto lapidado em Quintino e o samurai reverenciado no Japão sempre carregaram a mesma essência.

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Jose Roberto de Souza

José Roberto de Souza é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Atua como crítico de cinema, jornalista cultural e repórter estagiário do Jornal Atual.

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‘Zico: O Samurai de Quintino’, documentário sobre ídolo do Flamengo, está em cartaz nos cinemas (FOTO PETER WREDE)