Violência sexual contra crianças e adolescentes: o silêncio que precisa ser rompido

O dia 18 de abril marca o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, uma data que não deve ser lembrada apenas como um marco no calendário, mas como um chamado coletivo à responsabilidade social. Trata-se de um tema sensível, muitas vezes evitado, mas que exige visibilidade, informação e, sobretudo, ação.

A violência sexual contra crianças e adolescentes é uma das formas mais graves de violação de direitos humanos. Ela não se limita ao ato físico, mas envolve também coerção, manipulação emocional, exposição indevida e exploração, frequentemente praticadas por pessoas próximas à vítima. Esse dado, por si só, já revela um dos maiores desafios no enfrentamento do problema: o silêncio.

O silêncio, nesses casos, não é ausência de voz, mas resultado de medo, vergonha, culpa e, muitas vezes, da incapacidade de compreender o que está acontecendo. Crianças e adolescentes, por estarem em processo de desenvolvimento, nem sempre conseguem identificar situações de abuso, tampouco verbalizar o sofrimento. Por isso, o papel dos adultos, principalmente dos familiares, educadores, profissionais de saúde e da rede de proteção que torna essencial.

É preciso aprender a escutar além das palavras. Mudanças de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar, irritabilidade, ansiedade, alterações no sono e até manifestações físicas sem causa aparente podem ser sinais de alerta. Esses indícios não devem ser ignorados ou minimizados. Ao contrário, devem ser acolhidos com sensibilidade e responsabilidade.

Outro ponto fundamental é compreender que o enfrentamento dessa violência não se dá apenas no momento da denúncia, mas também na prevenção. Falar sobre o tema de forma adequada à idade, ensinar sobre o corpo, limites e consentimento, e criar espaços seguros de diálogo são estratégias que fortalecem a autonomia e a proteção de crianças e adolescentes.

No entanto, ainda vivemos em uma sociedade que, por vezes, tende a desacreditar a vítima, relativizar situações ou transferir responsabilidades. Essa postura contribui para a perpetuação da violência e para o agravamento dos danos psicológicos. Acolher uma revelação de abuso exige escuta qualificada, ausência de julgamento e compromisso com a proteção.

Do ponto de vista psicossocial, as consequências da violência sexual podem ser profundas e duradouras. Transtornos de ansiedade, depressão, dificuldades nos vínculos afetivos, baixa autoestima e até ideação suicida podem surgir ao longo da vida. Por isso, o cuidado deve ser integral, contínuo e articulado entre diferentes serviços da rede de atenção.

É importante destacar que o Brasil possui instrumentos legais e políticas públicas voltadas à proteção da infância e adolescência, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, que estabelece a garantia de direitos e a responsabilização dos agressores. Além disso, canais de denúncia como o Disque 100 são fundamentais para o rompimento do ciclo de violência. Denunciar é um ato de proteção.

Mais do que uma responsabilidade individual, o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes é um compromisso coletivo. Ele exige articulação entre famílias, escolas, serviços de saúde, assistência social e sistema de justiça. Exige, também, uma mudança cultural que rompa com o silêncio e priorize a proteção.

Falar sobre esse tema é, antes de tudo, um ato de cuidado. É garantir que nenhuma criança ou adolescente precise carregar sozinho o peso da violência. É afirmar que a proteção à infância é prioridade absoluta e que o silêncio nunca pode ser maior do que a responsabilidade de agir.

Neste 18 de abril, mais do que lembrar, é preciso se posicionar. Proteger crianças e adolescentes é um dever de todos nós.

Nívea Petersen

Nivea Petersen é assistente social e psicóloga, servidora pública da SEPPEN/RJ. Atua na Coordenação de Assistência à Saúde da Polícia Penal, com foco no gerenciamento de crises, no apoio psicossocial e na promoção da saúde mental, além da prevenção do adoecimento ocupacional no âmbito institucional. É mestranda em Saúde Biopsicossocial, com formação multidisciplinar voltada à saúde coletiva e ao cuidado do trabalhador.

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