Representante estudantil celebra cota trans na UFRRJ: “Pode elevar expectativa de vida”

Natasha Ferrari fez história no campus de Seropédica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro ao se tornar a primeira mulher trans a entrar para a concorrida graduação em Agronomia. No entanto, relatos dão conta de que por ser alvo de violência e não ter sua identidade respeitada, precisou mudar de curso.

Anos após o ataque aos direitos de uma pessoa trans, o Coletivo Madame – movimento estudantil pela permanência de pessoas trans na UFRRJ batizado em homenagem a Natasha, que era conhecida como Madame e faleceu em 2021, por Covid-19 – vibra com uma conquista histórica: a UFRRJ é a primeira universidade do Estado do Rio de Janeiro a reservar uma cota de 5% para pessoas trans nos cursos de pós-graduação.

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Mabel Almeida, secretária-geral do coletivo, comemorou a aprovação da cota – que deve passar a valer na prática já no primeiro semestre de 2024. E mais do que respeito e, consequentemente, a abertura de mais espaço para pessoas trans estudarem em uma instituição pública de Ensino Superior, conta ela ao ATUAL, o sistema talvez represente uma possibilidade a mais de sobrevivência: “Essa cota pode ajudar a elevar a expectativa de vida de pessoas LGBT+, que é curta… trans e travestis têm uma média de vida entre 30 e 35 anos Então, essa condição para que entrem em uma universidade pode representar uma mudança de vida”.

Por nota, a UFRRJ explicou que aprovou também cotas de 5% para refugiados e 5% para quilombolas e exaltou as reservas como uma “vitória na direção da equidade e visibilidade de grupos minoritários”.

Mabel Almeida é secretária-geral do Coletivo Madame, que luta pela permanência de pessoas trans na UFRRJ (Hiago de Farias)

Por falar em “grupos minoritários”, a reportagem questionou a universidade sobre quantas pessoas trans estudam no campus. A pró-reitoria de Assuntos Estudantis respondeu que a apuração está em andamento, e que, portanto, ainda não tem um número fechado.

O Coletivo Madame também não possui essa estatística. Mas do ponto de vista de quem está na universidade desde 2019, no curso de Ciências Sociais, Mabel afirma que não são muitos: “Durante este tempo, estudei com três pessoas trans apenas”, relata ela, supondo porque não é fácil fazer tal levantamento: “Muitos não se assumiram ou não conseguiram ainda trocar a identidade”.

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Confira a entrevista na íntegra abaixo:  

ATUAL: O que a cota trans na UFRRJ representa para a comunidade trans?
MABEL ALMEIDA: Entendemos que essa cota pode ajudar a elevar a expectativa de vida de pessoas LGBT+, que é curta. E isso fica muito mais grave quando os alvos são trans e travestis, que têm uma média de vida entre 30 e 35 anos. O pesquisador Fabio Lopes (Departamento de História/UFRRJ) apresentou um levantamento que aponta que travestis idosas costumam ter 35 anos, porque é a idade que elas chegam. A maioria morre antes. Ou são vítimas de mortes violentas ou se matam. Muitas vivem em situação de vulnerabilidade social, moram em abrigos ou até na rua, porque são expulsas de casa. Outras têm como realidade a prostituição e o subemprego. Então, essa condição para que entrem em uma universidade pode representar uma mudança de vida, uma abertura de portas. Uma chance de mudar estatísticas.

ATUAL: Então, mais do que espaço, a cota representa o combate à violência contra pessoas trans?
MA: O Coletivo Madame existe porque acredita nesse movimento de reação às violências que sofremos. Nos ensina muita coisa, nos fortalece para que a violência que sofremos não nos faça desistir. Garante pelo menos um ou dois LGBT+ em cada turma. E que mais pessoas LGBT+ possam vir para a universidade, encorajando outras. Porque muitas desistem por achar que vão sofrer violência.

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ATUAL: A Natasha Ferrari foi vítima de violência na universidade, certo?
MA: Sim. E precisou trocar de curso por isso. Saiu de Agronomia para Licenciatura em Educação no Campo.

ATUAL: Mas ela morreu vítima de homofobia?
MA: Não, foi por Covid-19. Ela viveu durante a pandemia no alojamento da Rural. E teve um papel muito importante de acolher as pessoas LGBT+, que por problemas com familiares, não puderam retornar para suas casas.

ATUAL: E você já foi vítima de algum tipo de violência no campus?
MA: Muitas vezes. Sou bissexual e se ando com uma pessoa por quem tenho afeto, e essa pessoa é mulher, já ouço comentários machistas. Uma vez, um cara falou que ia entrar entre nós duas para mostrar o que é relacionamento correto. Estamos numa cidade muito conservadora. Em junho, no Mês do Orgulho LGBT+, a universidade colocou uma bandeira enorme na entrada do campus, e a população se voltou contra. A vida lá não é tão fácil. Já usei a cabeça raspada, normalmente escolho roupas largadas… Não sou tão feminina. E uma vez que estava com a cabeça raspada e ao lado de um amigo com o cabelo enorme, nos disseram que estava tudo trocado, que as coisas não funcionam assim… Ou seja, ligaram cabelo a identidade de gênero.

ATUAL: De volta à cota, o sistema vale para qualquer pessoa trans ou há subgrupos que se beneficiariam da medida?
MA: A cota é para pessoas trans, sem exigência de outras modalidades para que o candidato seja incluso nessa cota. O que acontece é que, talvez, quando passe a valer também para a graduação, a gente consiga atrelar a cota trans a outras modalidades, como acontece com a cota PPI (Pretos, Pardos e Indígenas), que considera escola pública e renda.

ATUAL: Por falar em cota trans para graduação, apuramos que o projeto está em fase de estudos para elaboração da minuta…
MA: Sim, a universidade já acenou positivamente. É um movimento importante, e está aberta a possibilidade de reunião.

ATUAL: Ainda sobre a cota para pós, 5% são suficientes?
MA: Observamos essa porcentagem como um padrão em deliberações de outras universidades que encontramos. Mas é um primeiro passo dentro da Rural. Entendemos que 5% era uma garantia que precisávamos, mas com a possibilidade de ampliação.

ATUAL: Por quanto tempo vocês lutaram por essa causa? Como foram as conversas com a UFRRJ?
MA: As conversas nunca foram um problema, principalmente pelos apoios que tivemos. Foram muito importantes a professora Joyce Alves, coordenadora do CPID (Coordenação Institucional de Gênero, Raça/Etnia, Diversidade e Inclusão), pró-reitora adjunta de Assuntos Estudantis, primeira pró-reitora trans de uma universidade pública; e a deputada estadual Dani Balbi (PC do B), primeira deputada trans do Rio de Janeiro. Começamos em 2020 as conversas sobre a proposta, que ganhou mais concretude no ano passado. Nestes dois anos, foram muitos debates para mostrar a estudantes e servidores a importância da causa.

ATUAL: O Coletivo Madame e a UFRRJ não têm o número exato ou pelo menos aproximado de estudantes trans no campus. Por quê?
MA: Até houve um aumento nos últimos dois anos, mas ainda são poucos os estudantes trans no campus. É difícil conseguir esse número porque muitos ainda não se assumiram, não trocaram a identidade. Em todo o Coletivo Madame, temos apenas um menino trans no curso de Veterinária e uma outra pessoa não-binária. Esse cenário já diz muita coisa. Estou desde 2019 na Rural e, durante este tempo, estudei com três pessoas trans apenas. É muito pouco. E com a cota, a gente entende que trans e travestis passam a ocupar espaços na universidade, como produção de ciência, que normalmente conta só com estudantes héteros e cis (pessoa que se identifica com o gênero com o qual nasceu).

ATUAL: Acha que a UFRRJ pode se tornar uma universidade referência em questões ligadas à comunidades trans?
MA: Temos todo um caminho, como por exemplo o banheiro neutro e o nome social para pessoa trans, medidas que vigoram desde março, abril… Estamos preparando o terreno. Acho que a Rural já se tornou referência, pois já nos procuraram pedindo deliberação sobre a cota. Em agosto, durante um evento na universidade, pessoas quiseram vir conhecer o campus. A pós já era bem falada, mas o interesse aumentou. Acho que isso acontece por entenderem que se trata de uma universidade acolhedora.

Luiz Maurício Monteiro

Repórter com mais de 15 anos de trajetória e passagens por diferentes editorias, como Cidade, Cultura e Esportes.

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