Filme ‘Limite’, gravado em Mangaratiba, completa 95 anos

Considerado um dos melhores filmes brasileiros, clássico de Mário Peixoto revolucionou a linguagem cinematográfica nacional

O longa-metragem ‘Limite’, dirigido por Mário Peixoto, completou 95 anos neste domingo (17). Rodado em Mangaratiba e lançado em 1931, a produção é considerada um dos marcos do cinema brasileiro por suas escolhas estéticas e narrativas em um período de transição entre a era muda e o advento do som.

‘Limite’ recebeu o status de obra-prima do cinema brasileiro com o passar do tempo; a versão restaurada da obra foi exibida no Festival de Cannes em 2007 ( FOTO REPRODUÇÃO / LIMITE)

Exibida pela primeira vez no Cine Capitólio, na Cinelândia, a obra teve distribuição restrita à época, mas passou a ser reavaliada ao longo das décadas por críticos e pesquisadores. Em diferentes levantamentos realizados desde os anos 1980, o filme figurou repetidamente entre os títulos mais relevantes da história do audiovisual nacional.

Cinema experimental

Produzido entre 1930 e 1931, ‘Limite’ rompeu padrões narrativos consolidados no período. A trama acompanha duas mulheres e um homem à deriva em um barco, enquanto os personagens revisitam lembranças sobre prisão e abandono.

A estrutura recorre a flashbacks e metáforas para abordar temas como solidão e a passagem do tempo. Em vez de seguir uma linha cronológica convencional, a direção aposta em imagens fragmentadas e sequências contemplativas, algo que se aproxima das experiências de vanguarda europeias do início do século XX.

As filmagens aconteceram na Fazenda Santa Justina, em Mangaratiba, propriedade ligada à família de Peixoto. Parte dos equipamentos utilizados foi emprestada pela Phebo Brasil Film, produtora associada ao cineasta Humberto Mauro. O projeto ainda incorporou referências ao cinema internacional.

Reconhecimento tardio

Apesar da repercussão modesta no lançamento, ‘Limite’ começou a colher reconhecimento expressivo a partir da segunda metade do século XX. Em 1988, a Cinemateca Brasileira elegeu-o o melhor filme brasileiro de todos os tempos — veredito confirmado em 1995 por uma pesquisa da Folha de S.Paulo.

Em 2015, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) colocou a obra no topo da lista dos 100 melhores títulos nacionais da história. Na atualização de 2026, que renomeou a seleção para os ‘100 filmes brasileiros essenciais’, ‘Limite’ segue na relação como a obra mais antiga presente.

Vozes estrangeiras também celebraram o trabalho de Peixoto. O historiador francês Georges Sadoul classificou a produção como uma “obra-prima desconhecida”, enquanto o renomado cineasta Orson Welles descreveu a experiência de assistir ao longa como “fabulosa”, durante sua passagem pelo Brasil nos anos 1940.

Restauração

A deterioração das cópias originais ameaçou a sobrevivência do filme a partir dos anos 1950. Em 1959, pesquisadores iniciaram um processo de restauração que se estenderia por décadas. Em 2007, a versão recuperada financiada pela World Cinema Foundation e pela Cinemateca Brasileira, com apoio do diretor Martin Scorsese, foi apresentada no Festival de Cannes.

Desde então, a produção voltou a circular em mostras e sessões especiais. Em 2011, o Auditório Ibirapuera, em São Paulo, exibiu a versão restaurada com trilha executada ao vivo pelo músico Bugge Wesseltoft, acompanhado por Naná Vasconcelos e outros artistas. O Museu Municipal de Mangaratiba reúne materiais e documentos relacionados à obra, e preserva parte da memória daquela produção na cidade onde tudo foi gravado. Ele fica localizado na Rua Cel. Moreira da Silva, nº 173 – Centro.

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Jose Roberto de Souza

José Roberto de Souza é estudante de Jornalismo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Atua como crítico de cinema, jornalista cultural e repórter estagiário do Jornal Atual.

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‘Limite’ recebeu o status de obra-prima do cinema brasileiro com o passar do tempo; a versão restaurada da obra foi exibida no Festival de Cannes em 2007 ( FOTO REPRODUÇÃO / LIMITE)