Imagem de família separada pelo ICE ganha prêmio de fotografia do ano
O registro foi feito pela fotojornalista Carol Guzy, em agosto de 2025, nos corredores de um tribunal de imigração de Nova York, que se tornou o epicentro das deportações em massa da administração Trump
A imagem de uma família equatoriana separada à força num tribunal pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, o ICE, foi eleita vencedora do prêmio de Fotografia do Ano, do concurso World Press Photo 2026.

A fotografia, intitulada “Separados pelo ICE”, foi feita em 26 de agosto do ano passado, pela fotojornalista Carol Guzy que descreve o momento como “uma mãe e crianças inconsoláveis, desesperadas após a detenção do pai da família”.
Guzy recebeu a honraria nesta quinta-feira (23), em Amsterdã, na Holanda, durante uma cerimônia que premia os mais prestigiados do fotojornalismo em nível mundial.
Prédio do ICE
O momento foi registrado em um dos poucos espaços governamentais dos Estados Unidos ao qual os fotógrafos têm acesso: os corredores do infame Edifício Federal Jacob K. Javits, localizado em Manhattan, Nova York.
O prédio abriga em seu décimo andar um tribunal de imigração que se tornou, nos últimos meses, epicentro das deportações em massa do governo do presidente Trump.
O registro mostra o pai da família Luis — um imigrante equatoriano residente no bairro nova-iorquino do Bronx — junto com sua família para uma audiência de rotina. Após a audiência, ele foi detido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês).
Segundo a mulher, Luis não tinha antecedentes criminais e era o único provedor do lar, o que deixou a esposa e os três filhos do casal, de sete, 13 e 15 anos, enfrentando uma situação econômica incerta. “Por favor, entendam que viemos aqui para ter melhores oportunidades, não apenas para nós, mas também para nossos filhos”, implorou sua esposa, Concha, segundo a página do World Press Photo.
A fotografia na democracia
Segundo a diretora executiva do World Press Photo, Joumana El Zein Khoury, em uma democracia, a presença de câmeras naquele corredor serve como testemunha de uma política que transformou os tribunais em locais que destroem vidas; é um exemplo poderoso da relevância do fotojornalismo independente.
Ao entregar o prêmio, Khoury disse que a fotografia significa um registro duro e necessário da separação familiar por trás das políticas de imigração dos EUA. “Esta imagem mostra a dor inconsolável das crianças ao perderem seu pai em um lugar que foi construído para fazer justiça”, completou.
A política trumpista anti-imigratória
A política anti-imigratória de Donald Trump, intensificada a partir de 2025, baseia-se no endurecimento extremo das fronteiras e prioriza deportações em massa a fim de reduzir drasticamente a imigração legal e ilegal. Essa estratégia envolve a militarização do controle migratório, aumento do poder do ICE e a implementação de medidas que restringem o direito de asilo.
Uma ordem executiva de janeiro de 2025 revogou as medidas que impediam o ICE de realizar prisões em lugares sensíveis, como escolas, hospitais ou tribunais. A estratégia, impulsionada com um financiamento de US$ 75 bilhões (cerca de R$ 379 bilhões) para o ICE, resultou em um aumento sem precedentes na detenção de pessoas sem antecedentes.
Em entrevista à rádio pública americana NPR, Guzy disse que neste momento é imprescindível que a mídia mostre o rosto daqueles que estão sendo afetados pelas políticas de imigração do governo Trump, daqueles que estão sendo detidos e as consequências que as famílias estão enfrentando.
A fotojornalista falou sobre o poder de denúncia da fotografia. “Como imprensa, não nos cabe julgar, mas acredito que todas essas fotografias aumentam a conscientização e responsabilizam as agências [governamentais] e as autoridades judiciais”, concluiu Guzy.




