domingo, dezembro 5, 2021
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Itaguaí: bailarinos premiados vendem empadas para custear competições

Projeto sem patrocínio coleciona dezenas de vitórias em concursos com apenas três anos de existência

O talento, a determinação e o amor pela dança impulsionam os alunos do projeto Corpo Livre, em Itaguaí. Liderados pelo igualmente incansável José Roberto Cristiano Junior, o grupo coleciona dezenas de prêmios em concursos de dança na Região Sudeste com apenas três anos de atividades, intercalados pelo isolamento social forçado pela pandemia. A retomada, por sua vez, foi ainda mais significativa: nos últimos cinco meses, participou de três festivais e obteve resultados vitoriosos. Contudo, são necessários esforços extras para manter o projeto em atividade: a produção e venda de empadas para angariar verba.  Junior começou o trabalho como professor de dança do projeto Mais Educação da escola E e M Chaperó. Inscritos por ele na primeira mostra competitiva da rede municipal de educação de Itaguaí, em 2018, seus alunos ficaram em pri

O talento, a determinação e o amor pela dança impulsionam os alunos do projeto Corpo Livre, em Itaguaí. Liderados pelo igualmente incansável José Roberto Cristiano Junior, o grupo coleciona dezenas de prêmios em concursos de dança na Região Sudeste com apenas três anos de atividades, intercalados pelo isolamento social forçado pela pandemia. A retomada, por sua vez, foi ainda mais significativa: nos últimos cinco meses, participou de três festivais e obteve resultados vitoriosos. Contudo, são necessários esforços extras para manter o projeto em atividade: a produção e venda de empadas para angariar verba. 

Junior começou o trabalho como professor de dança do projeto Mais Educação da escola E e M Chaperó. Inscritos por ele na primeira mostra competitiva da rede municipal de educação de Itaguaí, em 2018, seus alunos ficaram em primeiro lugar nas categorias infantil e juvenil. A turma cursava o nono ano do Ensino Fundamental – a última série da grade curricular daquela unidade escolar. Vendo o interesse dos jovens pela continuidade das aulas e os benefícios por elas proporcionados às suas vidas, ele criou em 2019 o projeto Corpo Livre e passou a ensaiar o grupo na quadra poliesportiva do mesmo colégio, sempre após o horário de funcionamento regular do local, das 18h às 20h. 

Com títulos acumulados em 2019, grupo já arrebatou 34 prêmios neste ano de flexibilização do isolamento (Divulgação)

“O nome já diz tudo: livre para todos os tipos de corpos e idades. Para minha alegria, a maioria quis continuar o curso, com vistas a se profissionalizar”, relembra. Mas, como o novo projeto era autônomo e não tinha aporte financeiro, professor e alunos vendiam sacolés na rua para pagar a inscrição nos festivais e comprar o tecido para a confecção das roupas.

O trabalho envolveu o voluntariado em família: Junior contava com a colaboração da esposa costureira e da tia motorista de van. E deu certo. “Participamos de cinco festivais naquele ano, em municípios diferentes, e vencemos todos, divididos em equipes em categorias diversas e com variadas coreografias, que encantavam o público”, conta. Eles conquistaram o topo do pódio do Unidance e da 1ª edição do Sya in Dancing, ambos em Campo Grande (zona oeste da capital do RJ); da 2ª edição do Sya in Dancing e do Festival Vem Dançar, ambos em Pedra de Guaratiba (idem); e do Festival GW de Belford Roxo.

RETORNO PÓS-PANDEMIA

Em 2020, em função da quarentena, o professor tentou promover aulas on-line, porém sem êxito. “Nem todos os alunos possuíam internet em casa. Isso não só desmotivou uma parte dos alunos como despertou em alguns deles o início de um processo de depressão”, recorda-se. Com a flexibilização do distanciamento social e o uso de máscaras de proteção facial individuais e bastante álcool em gel, a turma voltou às aulas presenciais, em março deste ano, desta vez no terraço coberto da casa de uma das alunas, já que a escola onde ensaiavam continuou fechada por determinação governamental.

“Para esta retomada, passamos a produzir empadinhas. Todos ajudam: um grupo cozinha, outro sai às ruas para vender”, descreve Junior. Com o dinheiro, eles financiaram a participação em um festival em julho em Sepetiba, ocasião em que apresentaram 28 coreografias e levaram 26 prêmios; em agosto em Botafogo, concorrendo com quatro danças que se sagraram vencedoras e ainda garantiram um prêmio extra de melhor escola de dança; e em outubro em Belo Horizonte (MG), onde ganharam três das quatro disputas. Um incrível saldo para jovens recentemente introduzidos neste universo e com tão poucos recursos.

No último dia 23, o projeto obteve mais uma conquista, desta vez com sabor especial: Junior e seus alunos realizaram o sonho de executar a primeira apresentação exclusiva do grupo, em um palco só para eles, no Teatro Municipal Marilu Moreira, de Itaguaí. O espetáculo, intitulado Onde Tudo Começou, recontou por meio da dança a trajetória do Corpo Livre desde 2018.

“Como coreógrafo, me sinto realizado, pois tenho alunos órfãos que só não se entregaram à depressão nem se envolveram com coisas erradas graças à dança. É gratificante ver jovens que nunca dançaram de repente participarem de concursos e vencerem”, exclama. O dedicado professor, que tem 27 anos de idade e 12 de profissão, busca empresas ou pessoas parceiras que, por meio de patrocínio ou colaborações, mantenham o projeto vivo e colhendo frutos. Por ele já passaram 50 alunos, entre cinco e 25 anos de idade.

Prof. José Roberto Cristiano Junior (no alto à esquerda) busca contribuições que mantenham o projeto ativo (Divulgação)

VIDAS TRANSFORMADAS

Mãe dos alunos Micaella, 19 anos, e Orlando Rafael, de sete, Luana Coelho justifica por que cedeu o terraço de casa para os ensaios: “Eu me orgulho demais em ver um jovem como Junior incentivar outros jovens a cultivar valores, ética, moralidade e principalmente amor pela cultura. Durante o tempo em que se dedica à dança, essa galera fica fora das ruas, sem tempo ocioso para fazer besteira, afinal o mundo está aí oferecendo várias oportunidades negativas. Abraçar e apoiar o projeto é o mínimo que eu posso fazer”, explica.

A bailarina Patrícia Góis, de 19 anos, revela a diferença que o Corpo Livre faz em sua vida. “Expresso com a dança aquilo que não consigo dizer em palavras. Tira de mim os pensamentos e os sentimentos negativos. O projeto me ajudou a não desistir dos meus sonhos. Guardo muito carinho e muita gratidão pelo grupo e pelo professor”, diz.

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