Itaguaí debate integração de saberes ancestrais ao SUS

Encontro de medicinas tradicionais de matriz africana cobra políticas públicas efetivas e denuncia invisibilização no sistema de saúde

Itaguaí recebeu, no último domingo (22), o Encontro das Medicinas Tradicionais dos Povos de Matriz Africana, reunindo comunidades tradicionais, pesquisadores e profissionais de saúde para discutir a integração desses saberes ao Sistema Único de Saúde (SUS). O objetivo central foi transformar o reconhecimento cultural em políticas públicas concretas. Realizado no Ilê Axé N’Ibain, no bairro Jardim Laiá, o evento promoveu uma roda de conversa voltada à escuta, troca de saberes e articulação política.

A atividade integra o projeto Medicina Tradicional Afrobrasileira: Análise das tecnologias do cuidado no contexto da integralidade (MT Afro), conduzido pelo Observatório Nacional de Saberes e Práticas Tradicionais, Integrativas e Complementares em Saúde (ObservaPICS), vinculado à Fiocruz.

A iniciativa busca reconhecer e analisar práticas de cuidado historicamente desenvolvidas por povos de matriz africana, frequentemente invisibilizadas pelos modelos hegemônicos de saúde.

Racismo estrutural e invisibilização

Durante o encontro, participantes destacaram que o debate sobre práticas integrativas está diretamente ligado ao enfrentamento do racismo estrutural no SUS.

Segundo lideranças e especialistas, a ausência dessas práticas nas políticas públicas não está relacionada à falta de eficácia, mas a um histórico de deslegitimação dos saberes tradicionais.

Cobrança por políticas públicas efetivas

Falas vindas de representantes das comunidadesdo reforçaram a necessidade de avançar além do reconhecimento simbólico. A articulação entre cultura, identidade e políticas públicas foi apontada como fundamental para um modelo de saúde mais inclusivo. “Quando esses saberes são colocados à margem, o que se nega, na prática, é o acesso a uma saúde verdadeiramente integral. É urgente transformar esse diálogo em política pública efetiva”, afirmou Aloany Pedrosa, articuladora institucional e liderança representativa ao lado do professor Babalaô Ivanir dos Santos, referência nacional no combate ao racismo estrutural e à intolerância religiosa.

Jussara Octaviano e Aline Santiago, pesquisadoras da Fiocruz; Aloany Pedrosa, liderança e articuladora; e Rafael D’Allba, coordenador de pesquisa da Fiocruz

Ausência do poder público

A ausência de representantes da gestão municipal de saúde também foi apontada como um desafio recorrente, evidenciando a distância entre o poder público e os espaços de construção coletiva.

Prefeitura se manifesta

Em nota ao Atual, a Prefeitura de Itaguaí informou que valoriza as medicinas tradicionais dos povos de matriz africana e considera relevantes iniciativas que busquem melhorar a saúde da população.

Segundo a assessoria, o município recebeu o convite, mas não pôde enviar representantes devido a compromissos previamente agendados. Informou ainda que o secretário de Saúde, André Luiz Arêde da Silva, não teve disponibilidade para receber a comitiva na data, mas solicitou que seja feito novo contato para agendamento.

A administração municipal destacou que respeita manifestações culturais e reconhece a importância de discussões que integrem saúde e possíveis contribuições ao SUS.

Movimento por reconhecimento

Mais do que um evento pontual, o encontro em Itaguaí sinaliza um movimento mais amplo: reposicionar os saberes ancestrais no centro do debate sobre saúde, reconhecendo território, cultura e identidade como dimensões fundamentais do cuidado.

Leia mais: Itaguaí promove evento que reforça saúde da mulher

Welington Campos

Welington Campos é jornalista profissional. Tem formação em Licenciatura em Letras – Português e Espanhol. Exerce a função de subeditor do Jornal Atual, onde atua desde sua fundação em 2001.

Matérias relacionadas

Deixe um comentário

Botão Voltar ao topo