“Número é crescente”, diz taxista sobre acidentes na Rio-Santos em janeiro e fevereiro

Quem acompanha o noticiário de cidades às margens da Rio-Santos (BR-101), ou até mesmo grupos dessas regiões em redes sociais e WhatsApp, sabe que são frequentes notícias de todo tipo de acidente na rodovia. E em janeiro e fevereiro, meses de férias e Carnaval, tal estatística, infelizmente, tende a aumentar diante do maior fluxo na pista.

O ATUAL solicitou à Polícia Rodoviária Federal números de acidentes e vítimas nesse mesmo período em 2023 com foco nos trechos de Itaguaí e Mangaratiba – entre os km 391 e 456. O objetivo do levantamento é não somente ter uma dimensão dos riscos que a via pode oferecer, mas também fornecer uma base que sirva de estímulo para que os usuários tenham o máximo possível de cautela e atenção ao volante.

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Sobretudo aqueles que trafegam pela rodovia com frequência mesmo nesta época com mais deslocamentos: “Transito pela Rio-Santos todos os dias da semana, entre Angra e Santa Cruz. E o número de acidentes é crescente no verão”, relata Leidison Thimóteo, taxista que usa a via diariamente há aproximadamente sete anos.

FERIDOS E MORTOS

De acordo com o relatório da PRF, entre janeiro e fevereiro de 2023, aconteceram 60 acidentes no trecho que corta Itaguaí e Mangaratiba – dos quais 13 foram considerados graves. Quanto às vítimas, a corporação informou 65 feridos e quatro mortos – sendo três em Itaguaí, e um, em Mangaratiba.

Como efeito de comparação, em julho do ano passado – mês também marcado por recesso escolar – foram 22 acidentes, ou seja, bem menos que a metade em relação ao início do ano. Desse total, quatro casos constaram como graves, com 20 feridos e três mortos.

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Sobre os veículos que mais se envolvem em acidentes, os automóveis lideram a lista com 33 acidentes (três graves), 27 feridos e dois mortos. Em seguida, aparecem as motocicletas, com 14 ocorrências (três graves), 19 feridos e nenhum óbito.

Segundo a PRF, automóveis são o tipo de veículo que mais se envolveram em acidentes entre janeiro e fevereiro de 2023: total de 33 somente no trecho de Itaguaí a Mangaratiba (Divulgação/PRF)

Para Raphael Cendon, também taxista e usuário da Rio-Santos desde 2009, é comum ver episódios de imprudência na pista, o que eleva o risco de um acidente: “Infelizmente, nessa época do ano, muitos motoristas não respeitam as leis. Vejo excesso de velocidade; ultrapassagens em local proibido; motoristas bem abaixo do limite de velocidade na pista da esquerda; e outros dirigindo após ingerir bebida alcoólica”, enumera.

A reportagem procurou a CCR RioSP, responsável pela gestão da Rio-Santos, para apurar um total aproximado de quantos veículos cruzaram a rodovia no mesmo período do ano passado. A concessionária, porém, não tinha esses dados.

CAUSAS MAIS FREQUENTES

Por falar na combinação perigosa entre álcool e direção, os números de janeiro e fevereiro do ano passado não chegam a ser tão alarmantes. Ainda segundo a PRF, apenas um acidente (com um ferido) teve como causa “ingestão de álcool pelo condutor”. A propósito, após 686 testes de bafômetro realizados no período, 18 motoristas acabaram detidos.

Na verdade, as causas mais frequentes de acidentes foram “reação tardia ou ineficiente do condutor” (10 registros), “ausência de reação do condutor” (9) e “pedestre na pista” (9). Estas ocorrências resultaram em três óbitos.

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As descrições de “reação tardia ou ineficiente” e “ausência de reação” dos motoristas levantam a suspeita de que os casos tenham relação com imprudência, como comentou Raphael.

Aliás, Leidison também crê na falta de cautela como fator decisivo para tantas colisões. E do alto da sua experiência na pista, ele aponta um fator que pode desencadear uma direção perigosa:

“Por conhecerem a estrada, (motoristas)fazem manobras perigosas”

Leidison Thimóteo, taxista

TRECHOS MAIS PERIGOSOS

A assiduidade na pista também permite Leidison citar o trecho onde mais já testemunhou acidentes: entre Itacuruçá e Praia do Saco, ambas em Mangaratiba. E mais uma vez cita a irresponsabilidade ao volante como motivo: “A maioria dos acidentes poderia ter sido evitada”.

Já Raphael faz uma lista com diferentes pontos onde já testemunhou acidentes: curva em Itacuruçá, próximo ao posto de gasolina do Capixaba; curva na entrada do túnel Itacuruçá x Muriqui; curva da Morta, após a saída do túnel Itacuruçá x Muriqui; trecho da cachoeira 1 e 2 em Muriqui. Todos em Mangaratiba e, segundo ele, com colisões frontais.

Ele sugere uma intervenção que poderia reduzir a quantidade de desastres nesses pontos: “Deveriam fazer uma duplicação de Itacuruçá a Angra, onde se encontra o trecho mais perigoso da Rio-Santos, com muitas curvas perigosas”.

MELHORIAS NA RODOVIA

A sugestão de Raphael tem destinatário: a CCR RioSP. O ATUAL questionou a empresa sobre quais melhorias já foram realizadas na rodovia desde o início da concessão, em março de 2022.

A companhia retornou com a seguinte lista de intervenções:

• 170km de nova pintura de sinalização horizontal 

• Implantação de mais de 1,6 mil placas de sinalização 

• Implantação de quase 23 mil metros de novas defensas metálicas 

• Roçada de mais de 3 mil alqueires 

• Conservação e manutenção de mais de 100 estruturas de como pontes e viadutos 

• Conservação e manutenção de mais de 190 pontos de drenagem 

• Revitalização de toda iluminação dos trechos urbanos da rodovia 

• Recuperação de mais de 200km de pavimento.

• Construção de 10 novas bases operacionais.

MOTORISTA PEDE MAIS

Apesar dos significativos avanços, Raphael – que lidera o movimento por isenção de pedágio para moradores – pede mais e ainda classifica a Rio-Santos como uma rodovia insegura para trafegar: “Não é segura porque precisa de muita melhoria para os usuários”.

Além da falta de duplicação de pista entre Itacuruçá e Angra, ele cita outras falhas: “A sinalização de faixa e manutenção da via está bem precária mesmo depois da privatização.

“E na parte central (divisa entre as pistas), tem muito mato, sujeira e buracos nas grades de escoamento de águas pluviais”

Raphael Cendon, taxista

Já Leidison tem um olhar diferente para a atuação da CCR RioSP: “Hoje (com a privatização) a rodovia está mais segura. A sinalização melhorou, o atendimento ao cliente…” cita ele, fazendo apenas uma ponderação: “Para ficar mais segura, precisam apenas ativar os radares em lugares estratégicos, o que poderia evitar a maioria dos acidentes”.

Em tempo: a CCR RioSP já instalou os equipamentos, que só entrarão em operação após aval da PRF, o que ainda não tem previsão para acontecer.

O taxista Raphael Cendon criticou a CCR RioSP pelo mato na divisória de pistas da rodovia (Arquivo pessoal/Raphael Cendon)

CAMPANHAS DE PREVENÇÃO

Importantes assim como melhorias na pista, as campanhas de prevenção também estão no programa da CCR RioSP. A empresa lembra que promoveu no último ano, em Paraty, Mangaratiba e Itaguaí, a Maio Amarelo e a Semana Nacional do Trânsito. 

Em parceria com as prefeituras locais, o objetivo era orientar e conscientizar motoristas,  motociclistas, ciclistas e pedestres com distribuição de itens de segurança, entre eles, antena corta linha e fita refletiva.

A companhia garante que pretende ampliar tais ações em 2024, inclusive com outra campanha: Vou de Cinto, para orientação de passageiros de ônibus sobre a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança durante toda a viagem.

Já a PRF realiza até 18 de fevereiro a 13ª Edição da Operação Rodovida, cujo foco é a redução do número de acidentes durante períodos com mais deslocamentos em rodovias federais, como férias escolares e Carnaval.

A proposta é que os agentes atuem no combate a imprudências como embriaguez ao volante, excesso de velocidade e ultrapassagens proibidas, que a PRF destaca como “as principais infrações relacionadas aos acidentes com óbitos nas rodovias federais que cortam o Rio de Janeiro”.

AUTOCONSCIÊNCIA

Entretanto, pouco adiantam campanhas e reparos na rodovia se o motorista não tem a consciência da importância da responsabilidade ao volante. Raphael, por exemplo, cita iniciativas básicas, como não beber e ter sempre a manutenção do automóvel em dia.

Mas ele enfatiza também um outro cuidado essencial, mas que pouco se fala: “Procuro andar sempre descansado, porque o sono é outro motivo de vários acidentes na estrada”.

Já Leidison garante que não lança mão de de uma prática comum em rodovias brasileiras e que pode, sim, causar tragédias: “Não uso o acostamento para trafegar”, afirma o taxista, que encerra se dizendo adepto de uma ação que pode salvar vidas e deixar a sua viagem mais tranquila: “A direção defensiva”.

Luiz Maurício Monteiro

Repórter com mais de 15 anos de trajetória e passagens por diferentes editorias, como Cidade, Cultura e Esportes.

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