sábado, junho 25, 2022
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Sequestro com espancamento de aluno do Cefet Itaguaí apavora estudantes

Local onde fica a unidade de ensino e o shopping há muito é temido por jovens e trabalhadores; há também relatos de estupros e assaltos frequentes

Os alunos do campus Itaguaí do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow a Fonseca (Cefet) estão apavorados desde a primeira semana do mês. No dia 7 de junho, um aluno de 21 anos do curso noturno foi sequestrado, espancado, roubado e atirado em um valão. Neste dia, ao sair da última aula, ele caminhou de volta para casa, como fazia todas as noites, mas passou horas de terror ao ser abordados por bandidos, ficar sob a mira de uma arma e acionar parentes, a mando dos criminosos, para realizarem transferências bancárias.

O estudante, assim como outros da mesma unidade de ensino, saem da aula e caminham em direção ao DPO, perto da rotatória que é, simplesmente, a entrada da cidade. Mas, à noite, o local é arriscado não só para estudantes, mas também para funcionários do shopping PátioMix Costa Verde, que fica nas imediações.

Por motivos de segurança, usaremos nesta reportagem o nome fictício de “Julio” para nos referir à vítima e outros nomes inventados para nos referirmos a outros estudantes.

O ATUAL conversou com Joana (23 anos), amiga e colega do aluno sequestrado. “Estamos com medo mostrar nossos rostos, porque os criminosos estão soltos. Pegaram o Julio perto da nossa casa, tiveram acesso ao Whatsapp dele, que tem o grupo com o nosso endereço anotado… Não sabemos o que eles sabem”, teme a estudante.

Assim como Julio, Joana estuda Engenharia de Produção no Cefet e divide aluguel com ele e mais outro estudante para ficarem mais perto do curso, reduzirem gastos com transporte e evitar estresse. Apavorada, ela conta que sua vida mudou radicalmente depois do crime: “Eu estou com medo de ir até o portão colocar o lixo pra fora à noite. Eu tenho ansiedade e não me sinto bem desde que tudo aconteceu”, relatou.

DESAPARECIDO POR HORAS

Na terça-feira, dia 7 de junho, Julio teve aula até as 20h. Geralmente, por motivos de segurança, um colega espera o outro para fazer o trajeto de volta do Cefet. Eles fazem uma boa caminhada até chegarem em casa, geralmente na companhia de um grupo de pessoas que segue para o mesmo bairro. Mas, neste dia, tudo foi diferente: os colegas de Julio saíram mais cedo e decidiram ir embora antes. Ainda assim, quando a aula acabou, ele avisou aos amigos com quem mora (era hábito entre eles) que já estava indo para casa.

Passado algum tempo, deram pela falta do rapaz. Os três amigos têm o hábito de jantar juntos, por isso continuaram esperando. Os que estavam em casa acabaram jantando às 22h30, mas Julio não chegou. Às 23h, os amigos decidiram fazer uma busca. Foram andando a pé até o Cefet e colocaram a foto do colega no grupo de Whatsapp no qual estão todos os alunos da faculdade, para tentar obter alguma informação. Mas só conseguiram a confirmação de que Julio havia saído na hora que ele avisara aos amigos.

Joana disse que uns amigos em Itaguaí que lidam com câmeras informaram a ela que viram Julio pelo caminho às 20h38, com outro rapaz. Após esse momento, ele não foi mais visto. Os amigos falaram com os seguranças do Cefet, por volta das 23h30. Depois disso, quando estavam voltando para casa, encontraram Julio em frente ao DPO, na companhia de seu pai.

MOMENTOS DE TERROR

Segundo o relato de Joana ao ATUAL, Julio contou que, quando saiu do Cefet, um carro o acompanhou. Em um determinado momento, homens de dentro do veículo fizeram a abordagem, mostraram uma arma e o obrigaram a entrar no automóvel.

Dentro do carro, Julio foi espancado e asfixiado. Seu rosto ficou desfigurado. Os sequestradores exigiram nomes à vitima para que providenciassem transferências bancárias. O pai de Julio fez um pix de R$ 900 para os bandidos. Fizeram também empréstimo pelo aplicativo do banco e a instituição liberou R$ 1,6 mil.

Nas proximidades do Cefet e do shopping PátioMix, rotatória de entrada da cidade de Itaguaí já é perigosa de dia. À noite, já foi palco de crimes horrorosos que não têm servido de alerta para que autoridades tomem providências efetivas (Imagem: Google Maps)

Após os saques bancários, os bandidos levaram Julio para a Avenida Brasil, já próximo à Rio-Santos. Deram a ele um copo – disseram que era para ele beber água do valão – e o jogaram no canal. Felizmente, o pai do jovem o encontrou e o resgatou.

O jovem foi medicado e ainda se recupera. Talvez nunca se recupere do trauma, contudo.

A 50ª DP investiga o caso.

Julio está em casa, mas não quer mais voltar ao Cefet Itaguaí. Ele também não teve condições de falar com a reportagem. Assim como ele, outros alunos do Cefet também ficaram traumatizados. De acordo com Joana, uma estudante teve uma crise de ansiedade na terça-feira (14), uma semana após o sequestro, porque ia fazer o mesmo caminho que Julio fez na noite em que viveu os horrores do crime.

CEFET RECOMENDA

No dia 27 de maio, o Cefet se reuniu com representante da coordenadoria do Senai e com o secretário de Transportes de Itaguaí, José Carlos, para tratar do tema da segurança nas imediações. De acordo com a nota emitida pela instituição de ensino, o encontro resultou em uma ação conjunta para solicitar maior patrulhamento na região. Além disso, a entidade divulgou as seguintes recomendações para os alunos: “Evite andar sozinho; Adote, se possível, o sistema de carona solidária; Quando estiver só, escolha bem o seu trajeto e evite passar por locais desertos e ou pouco iluminados”.

PREFEITURA e POLÍCIA

O ATUAL entrou em contato com a Secretaria de Segurança de Itaguaí. Por meio de Whatsapp, enviaram a seguinte nota: “O Secretário Municipal de Segurança Pública, Defesa Civil e Trânsito, Gilson Stutz, determinou que o policiamento seja intensificado na região, a partir de reunião realizada com os diretores do Cefet, que apresentaram a demanda e suas peculiaridades, como os horários e modus operandi das ocorrências”.

Tal reunião aconteceu no dia 27 de maio. Ou seja, antes do sequestro de Julio. Por isso, os alunos afirmam que até agora nenhuma mudança ocorreu e o medo só aumenta. De acordo com Joana, no dia 8 de junho, um dia depois do ocorrido com seu amigo, houve um assalto atrás do Cefet. No dia 9, mais um assalto embaixo do viaduto próximo ao centro de ensino.

O ATUAL entrou em contato com a Polícia Militar do Rio de Janeiro, que até a publicação dessa matéria não enviou resposta.

ROTATÓRIA DO MEDO

O Cefet fica ao lado de duas outras edificações importantes: o hotel Tulip Inn e o shopping PátioMix Costa Verde. O local simplesmente é a entrada da cidade de Itaguaí. Mais ou menos recente, em um dos “jardins”, foi instalado um totem que sinaliza “seja bem-vindo a Itaguaí”, justamente onde, à noite, é preciso grande coragem para enfrentar perigos iminentes.

O ATUAL já ouviu muitos relatos de estupros e assaltos que ocorrem nas proximidades, principalmente porque funcionários (de restaurantes, principalmente, porque fecham mais tarde) precisam atravessar para o outro lado da Rio-Santos para pegar condução (o que também é uma aventura em Itaguaí, pela escassez).

Acontece que há muito tempo as pessoas precisam fazer um cálculo assustador: arriscar-se na travessia da Rio-Santos por cima ou por baixo? Por cima, o perigo de atropelamento, por baixo, de assalto; e, se for mulher, de estupro.

Um empresário que tem estabelecimento no shopping conversou com a reportagem e explicou que o poder público simplesmente ignora o perigo que a localidade representa, apesar da importância do Cefet para a vida dos jovens e do shopping para trabalhadores e consumidores.

Além da má iluminação e da falta de policiamento, o transporte público é inexistente, o que obriga as pessoas a caminhar, pelo menos, até a guarita do DPO, que fica vários metros depois da rotatória, em um percurso em que tudo pode acontecer.

O crime que vitimou o jovem estudante é apenas mais um no local, e a resposta das autoridades, até o momento, insuficiente ou inexistente.

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