Blackwashing: entenda a falsa postura antirracista de empresas

Estudo identifica estratégias de comunicação corporativas usadas para projetar compromisso com a igualdade racial sem promover mudanças estruturais

O  termo “Balckwashing” descreve estratégias de comunicação utilizadas por empresas que querem protejar uma imagem de compromisso com a igualdade racial, mas que na prática não promovem mudanças estruturais reais

Blackwashing
Pessoas pretas ocupam menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria (DIVULGAÇÃO ESTRATÉGIA ESG)

Práticas como o uso de marcas e influenciadores para transmitir uma imagem antirracista e a falsa atuação em espaços de formulação de políticas públicas pretas podem parecer simples, mas trazem consigo outros significados.

Em tradução livre, blackwashing pode ser entendido como uma espécie de “lavagem” ou maquiagem da imagem de uma empresa em relação à pauta racial para obter lucro. O termo é análogo a greenwashing, usado para descrever ações que simulam compromisso ambiental, e pinkwashing, relacionado ao uso da pauta LGBTQIA+ para fins de imagem.

As corporações e a pauta racial

Para explicar o conceito e mapear as táticas por trás dessa prática, foi lançado o estudo “As corporações são, de fato, engajadas na pauta racial?”, elaborado por pesquisadores da organização não governamental (ONG) ACT Promoção da Saúde que definem o conceito como uma “tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro”.

O levantamento de 133 páginas traz uma lista de práticas de comunicação e marketingutilizadas por empresas para construir uma imagem pública de compromisso com a pauta antirracista sem promover mudanças estruturais em suas práticas.

Os pesquisadores mapearam oito variedades de blackwashing:

  1. Divulgação seletiva – comunicação corporativa enfatiza apenas as áreas nas quais estão buscando uma melhora na performance sobre as questões raciais e não divulga áreas nas quais eles não melhoraram ou até pioraram. Essa estratégia pode ser vista como um “antirracismo de aparência.
  1. Políticas e reivindicações vazias – implementação de políticas vendidas como uma transformação radical nas relações raciais, quando na verdade há pouco poder para a implementação ou as políticas têm baixo potencial de mudança no status quo.
  1. Certificações duvidosas – utilização de certificações conferidas por terceiros para promover um produto e/ou uma empresa como benéfico para pessoas negras.
  1. Apoio e parceria com ONGs cooptadas – associação com organizações que atuam na pauta racial para conferir credibilidade aos esforços corporativos na busca pela equidade racial.
  1. Programas voluntários sem eficiência – criação e comprometimento com programas e códigos voluntários para promover a equidade racial nos locais de trabalho, com mecanismos de aplicação fracos.
  1. Narrativas e discursos enganosos – campanhas de marketing com a finalidade de posicionar a corporação como referência antirracista, independentemente do seu histórico nesta área.
  1. Marcas enganosas – uso de logos, influenciadores e vozes estratégicas para implicar que a marca é antirracista.
  1. Acessar e influenciar a formulação de políticas – acesso e influência em espaços de tomada de decisão sobre políticas de equidade racial, saúde e direitos da população negra.

Representatividade segue reduzida

Ao abordar a representatividade racial nas empresas, o estudo utiliza dados de um levantamento do Instituto Ethos com as 1,1 mil maiores empresas do país.

Os números mostram que, embora 55,5% da população brasileira se identifique como preta ou parda, esse grupo ocupa menos de 6% dos assentos em conselhos de empresas e menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria. A publicação destaca que a baixa participação é ainda mais acentuada entre mulheres negras em posições de liderança. 

Leia mais: Itaguaí lança novo Centro de Imagem

Natalia Natalino

Jornalista, produtora audiovisual e fotógrafa formada pela UFRRJ.🏳️‍⚧️

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