domingo, agosto 14, 2022
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Aluna de 85 anos de curso Normal em Itaguaí tem coragem, sonho e felicidade

Uma lição de vida! Isso é o que ensina, a quem se aproxima, a nova aluna do primeiro ano do Curso Normal do Colégio Estadual Clodomiro Vasconcelos, em Itaguaí. Ignácia de Carvalho do Carmo, de 85 anos, ainda não é professora com diploma na mão, mas é mestre na arte da coragem e da persistência.

“A vida me disse muito não. Mas eu tinha um freguês que chegava bêbado lá no bar e dizia assim: ‘Dona Ignácia, não tem nada errado’. E eu concordo com ele”, disse dona Naná, como é chamada pelos amigos, ao falar de sua história para o ATUAL.

TRABALHO INFANTIL

Bem antes de lidar com lápis, canetas, cadernos e livros, dona Naná foi para a lida no campo. Ela lembra que aos oito anos de idade, o pai lhe deu um presente: uma enxada pequena, como ela. A menina bem que gostou. Diz que até hoje gosta de trabalhar na roça, mexer na terra, plantar. Ainda assim, uma vontade não lhe saía da mente. O que ela de fato queria era ir para a escola. Vontade bem contrária a do pai. Apesar disso, ela foi matriculada em uma escola no ano de 1948.

“Foi maravilhoso! Ganhei um monte de coisa. Ganhei um livrinho que tenho até hoje. Eu aprendi bastante em pouco tempo, mas fiquei só aquele ano. Meu pai me tirou da escola. Ele sempre dizia assim: ‘serviço de criança é pouco, mas quem perde é louco!’”.

A partir daí, dona Naná nunca mais sentou em um banco escolar. No entanto, a distância dos estudos só fez o sonho de ser professora crescer junto com a menina, que vivia no bairro de Piranema, em um engenho pequeno da família. Ainda bem novinha já era responsável por preparar o melado e a rapadura, sem qualquer incentivo para estudar.

Naná (segunda da esquerda para a direita), de vestido branco, com a mãe (com uma criança no colo), a avó (última da esquerda para a direita e que também se chamava Ignácia) e os irmãos logo que chegaram a Itaguaí (Arquivo pessoal)

NÃOS

Quando dona Naná disse que a vida sempre lhe disse não, ela não entrou em detalhes porque prefere falar das coisas boas. Mas a vida sempre foi dura para ela. No curto tempo que passou na escola, embora gostasse muito do ambiente, não ia às aulas às quintas-feiras. Pois esse dia da semana era quando tinha a revista do uniforme e seu uniforme não era completo. Faltavam-lhe os sapatos.

Naná era a terceira de onze irmãos. A vida também disse não quando ela perdeu uma irmã, que regulava em idade com ela. Quando a aluna do curso Normal tinha cerca de 10 anos, a família deu por falta de uma das crianças. Naná então ficou incumbida de ir procurá-la. Naná a encontrou. Encontrou o corpinho da irmã afogado em um poço do terreno onde moravam havia pouco tempo.

Outro não na vida de Naná, foram os filhos que nunca teve. Só engravidou depois de 11 anos de matrimônio. Acabou sofrendo um aborto espontâneo, o que atribui à falta de repouso por conta do trabalho pesado que realizava para ajudar o marido no bar do casal. Depois disso, dona Naná engravidou mais duas vezes, mas as gravidezes não foram muito adiante.

“Eu tinha muito medo de envelhecer e ficar sozinha. Ficava pensando: ah meu Deus, como vai ser quando eu ficar velha sem ter um filho?”, se questionava.

RESPOSTA

Hoje a resposta está muito clara sobre o que seria dela quando ficasse velha e sem filhos: “Tive caso na família de gente que teve filho e ele nem ligava. Eu não tive filho, mas todo mundo me quer. Graças a Deus. Sou muito feliz!”, reconhece.

Naná se casou aos 17 anos. Depois de 51 anos de casamento, ela ficou viúva e quando uma das irmãs adoeceu, ela foi cuidar dela. De lá, nunca mais saiu. Não a deixaram voltar para sua casa sozinha. Decidiram então que Naná moraria no quintal da família, no bairro Califórnia. “Ah, é muito bom. Eu cuido da minha roupa, cuido da minha comida e a minha sobrinha me ajuda em tudo. Eu sou muito feliz!”, fala animada.

FINALMENTE NA ESCOLA

Aliás, a sobrinha Brígida é uma das maiores incentivadoras da normalista. Quando a tia Naná disse que gostaria de estudar à noite, a sobrinha imediatamente procurou o Centro Municipal de Estudos Supletivo de Itaguaí (Cesmi) para matriculá-la no Ensino de Jovens e Adultos (Eja). Isso foi em 2019.

Dona Naná, sempre rindo, conta que não esperava passar. Mas fez a prova de nivelamento e entrou no quarto ano do ensino fundamental. “Sinceramente eu não esperava entrar no ano que entrei, mas aprendi um pouco trabalhando no comércio”, diz.  A partir dali, Naná ficou mais animada. Até ficou em primeiro lugar no concurso de poesia, com o incentivo e apoio de uma das professoras. Acabou com seu poema publicado no livro do concurso Jovens Poetas, da Prefeitura de Itaguaí, com apoio da Vale. Naná era animação pura, até que veio a pandemia de covid-19.

“Ah, eu fiquei muito desanimada com a pandemia. Achei que não ia aprender mais nada, mas o ensino remoto foi muito bom para mim. Minha sobrinha pegava as apostilas e me ajudava muito. Até que eu conclui o ensino fundamental aos 82 anos. Ihhhh, eu fiquei muito feliz!”.

Mais uma vez, o incentivo da sobrinha Brígida foi fundamental. Sabendo do sonho da tia de ser professora, ela falou do curso de formação de professores do Colégio Estadual Clodomiro Vasconcelos. Tia Naná topou na hora.

A professora Junia (de máscara) e os colegas da dona Naná na turma de formação de professores do Clodomiro (Arquivo pessoal)

NANÁ NO CLODO

“Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando eu coloquei o uniforme. Meu sonho era colocar uniforme. Eu fiquei com vontade de chorar. Ai, como eu sou feliz!”

A felicidade na vida de Naná continua, mas ela conta que não tem sido nada fácil. “Ah, ta muito difícil. Estou muito ruim em Matemática e Inglês. Fiz um teste e entreguei sem fazer nada. Chorei feito uma boba. Chorei por vários minutos feito uma boba. Mas os professores são muito pacientes e tenho uns colegas muito bons comigo”, conta Naná sobre o companheirismo na escola.

A normalista fala que as dificuldades nas aulas cresceram porque ela precisou faltar e ainda tem que faltar a algumas aulas. Ela teve um câncer – “um tal de melanoma” –  e hoje tem que verificar como anda a saúde, depois de precisar amputar um dedo do pé. Naná caiu recentemente e fraturou um braço, o que faz com ela precise fazer sessões de fisioterapia também.

Mas se alguém acha que dona Naná reclama da vida, se engana. Ela sempre repete: “Eu sou muito feliz”. Ela diz que não tem medo algum, encara tudo que a vida coloca para ela. “Nunca pensei em ter o que tenho. As coisas me acontecem e está tudo certo. Nem a doença foi ruim. Está tudo resolvido. Aos 85 anos, não tenho medo algum. Sou muito feliz!”

Perguntada pela reportagem se ainda tem algum sonho, ela não titubeou: “O sonho é viver até os 87 anos e me formar professora. Aí, o sonho estará realizado, porque eu sou muito feliz”.

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