“Apresento uma combinação de formação, experiência administrativa e conhecimento do poder público”

Candidato pelo Democrata enfatiza o tom que imprime à campanha, aliando objetividade, compromisso com a meritocracia e apego à capacidade de gestão

Numa campanha cheia de idas e vindas em relação a candidaturas à Prefeitura de Itaguaí, o primeiro postulante a comemorar o deferimento de seu nome e legenda pela Justiça Eleitoral foi o jornalista Marcelo Cunha, que concorre pelo Democrata. Em meio aos compromissos de campanha e às visitas que intensifica para se apresentar ao eleitorado itaguaiense, ele reservou um tempo na semana para a conversa que segue sobre sua participação na disputa. No diálogo, ele promete uma administração técnica e livre das amarras com as quais articulações políticas de ocasião insistem em macular o exercício da atividade político-partidária no país. “Respeito a experiência, mas experiência eleitoral, por si só, não é sinônimo de competência, compromisso ou capacidade de gestão. Às vezes, ser novo como candidato significa ter independência, coragem e liberdade para enfrentar práticas que se repetem há anos”, enfatiza ele ao Atual:

Marcelo Cunha sentado à mesa sorridente
Candidato pelo Democrata, Marcelo Cunha aposta em discurso pró-gestão técnica na disputa por Itaguaí (FOTO DIVULGAÇÃO)

ATUAL – O senhor entrou na cena política municipal bem recentemente. Acredita que terá tempo de se apresentar convenientemente como candidato para o eleitorado itaguaiense?

Marcelo Cunha: Esta é, sim, a minha primeira candidatura, e coloquei meu nome à disposição da população porque entendi que não podemos continuar apenas assistindo a cidade usada por grupos políticos que já testados nas urnas, receberam oportunidades e, mesmo assim, não apresentaram as soluções que o povo precisa. Respeito a experiência, mas precisamos compreender que experiência eleitoral, por si só, não é sinônimo de competência, compromisso ou capacidade de gestão.

Enxerga vantagem, então, em ser uma novidade?

Às vezes, ser novo como candidato significa justamente ter independência, coragem e liberdade para enfrentar práticas que se repetem há anos. Como jornalista, acompanho diariamente a política local e nacional. Conheço os problemas de Itaguaí, ouço a população e nunca tive medo de dizer as verdades que muitas vezes tentam esconder do cidadão. Tenho certeza de que haverá tempo para a população conhecer nosso projeto, porque o povo de Itaguaí já conhece os problemas e sabe quem teve oportunidade de resolvê-los e não resolveu.

Que credenciais o senhor apresenta como postulante a tão relevante cargo?

Apresento uma combinação de formação, experiência administrativa e conhecimento prático do funcionamento do poder público. Estou concluindo, agora em outubro, graduação em Gestão Pública. Minha experiência, porém, não está apenas na sala de aula ou em um diploma. Até fevereiro deste ano, exerci a função de subsecretário na Fundação de Desenvolvimento Social de Belford Roxo. Também participei da gestão do prefeito anterior do município. A atuação em administrações diferentes demonstra que meu trabalho teve reconhecimento pela capacidade técnica, pelo compromisso e pelos resultados, e não apenas por uma relação política circunstancial.

Alguma outra experiência a destacar?

Tive ainda experiências e presença institucional na Alerj e em diferentes câmaras municipais, inclusive na de Itaguaí. Isso me proporcionou conhecimento sobre políticas públicas, orçamento, fiscalização, relações institucionais e articulação com os governos estadual e federal. Também exerci funções públicas em municípios maiores e mais complexos. Sei como fazer a máquina pública funcionar, buscar recursos, estabelecer parcerias e transformar planejamento em resultado para a população.

O senhor recebeu apoio do ex-governador Anthony Garotinho, que, além de ser o candidato com maior índice de rejeição, teve o registro de candidatura ao Governo do Estado indeferido por unanimidade pelo TRE. Esse tipo de apoio é bem-vindo?

Todo apoio democrático e espontâneo ao nosso projeto é bem-vindo. Recebi a manifestação do ex-governador Anthony Garotinho com respeito, assim como recebo o apoio de qualquer cidadão que acredita que Itaguaí precisa mudar. É importante deixar uma coisa muito clara: apoio político não significa concordância automática com toda a trajetória, decisão ou posicionamento de quem apoia. A situação eleitoral e jurídica do ex-governador compete à Justiça, cujas decisões merecem respeito. Eu respondo pela minha história, pela minha conduta e pelo projeto que apresento à população de Itaguaí.

O ex-governador fez um apelo público para que o ex-candidato Donizete Jesus o apoiasse. O senhor chegou a conversar com Donizete sobre o assunto?

Sim, conversei com Donizete. Ele é uma figura política por quem tenho respeito e apreço. Inclusive, já o recebi no Fala Rio Podcast, onde tivemos a oportunidade de conversar sobre Itaguaí e sobre a política municipal. Naquele momento, antes da definição da minha candidatura, deixei claro que, se existisse a possibilidade de eu aceitar ser vice de alguém, essa pessoa seria Donizete, justamente pelo respeito que tenho por sua trajetória e pela expressiva confiança que ele recebeu da população nas urnas. Posteriormente, Donizete me pediu que voltássemos a conversar.

O que falta ou faltou para essa nova conversa?

Essa nova conversa ainda não aconteceu e, até o momento, nossos caminhos políticos não convergiram para um projeto único. Compreendo que Donizete esteja totalmente dedicado à campanha de Gil Torres, a quem desejo toda sorte nessa caminhada. Respeito os compromissos assumidos por eles e considero natural que, neste momento, estejam concentrados nesse projeto. Após o encerramento das eleições para deputado, pretendo procurar Donizete para retomarmos o diálogo, sempre pensando no melhor para Itaguaí.

O senhor também conversou com Dr. Helinho. Por que essa aliança não se concretizou?

A aliança não se concretizou porque eu não negocio secretarias em troca de apoio político. Como foi apresentada publicamente uma versão incompleta desses acontecimentos, considero necessário esclarecer os fatos com serenidade e transparência. Fui recebido respeitosamente na residência do Dr. Helinho, acompanhado pelo meu coordenador Cristiano Lopes. Na ocasião, Dr. Helinho afirmou que, para caminhar conosco, precisaria que eu assumisse o compromisso de destinar cinco secretarias ao seu grupo. Respondi imediatamente que essa condição seria inviável e que não poderia assumir tal compromisso. Saímos dali com a possibilidade de voltarmos a conversar. O novo encontro aconteceu numa praça de Coroa Grande. Recebi informação de que encontraria duas pessoas interessadas em integrar nosso projeto, mas não sabia que Dr. Helinho estaria presente. Mesmo surpreendido, permaneci e dialoguei respeitosamente com todos.

E por que o entendimento não evoluiu?

Durante a conversa, sugeri que ele esclarecesse uma declaração dada ao próprio Jornal Atual: “2028 é logo ali”. Essa frase provocou preocupação entre pessoas do nosso grupo, que interpretaram que ele poderia estar se preparando para disputar a Prefeitura dentro de uma eventual administração nossa. Pedi apenas que esclarecesse publicamente a declaração, preservando a confiança e a estabilidade do projeto. Ele não concordou, levantou-se e afirmou que, nessas condições, não seria possível caminharmos juntos. Respondi com uma frase muito simples: “Na minha casa, minhas regras; na sua casa, suas regras”. Continuo respeitando Dr. Helinho, mas não abrirei mão dos princípios do nosso projeto.

Como fazer campanha num pleito em que sequer se sabe contra quem, efetivamente, está concorrendo?

Nós fazemos campanha apresentando propostas à população, e não escolhendo contra quem gostaríamos de concorrer. Quem define quais candidaturas estarão nas urnas é a Justiça Eleitoral, e respeitaremos todas as suas decisões. Continuaremos nas ruas, ouvindo a população e apresentando soluções. Os nomes dos concorrentes podem mudar por decisão judicial; os problemas de Itaguaí e nossa responsabilidade de enfrentá-los permanecem os mesmos. Minha candidatura está preparada para disputar com qualquer adversário que a Justiça Eleitoral considere apto. A decisão sobre os registros cabe à Justiça; a decisão sobre o futuro de Itaguaí caberá ao povo.

Em declaração ao Atual, o senhor disse que a cidade de Itaguaí está arrasada. Com base em que faz essa avaliação?

Quando digo que Itaguaí está arrasada, não estou falando do seu povo nem diminuindo o potencial da cidade. Itaguaí possui trabalhadores, riquezas, um porto estratégico e enorme capacidade de desenvolvimento. Estou falando da situação administrativa e da precariedade dos serviços que chegam à população. Uma cidade com orçamento superior a R$ 1 bilhão não deveria enfrentar pendências no CAUC, ausência de certidões ou problemas relacionados ao Certificado de Regularidade Previdenciária. Essas irregularidades podem dificultar ou até impedir transferências voluntárias, convênios e operações de crédito com instituições públicas.

Onde mais o senhor vê problemas?

Na saúde, temos somente um hospital municipal, o Hospital São Francisco Xavier, em reforma desde 2024 e funcionando com capacidade reduzida. Enquanto as obras se prolongam, quem sofre é o cidadão que precisa de atendimento, exames, cirurgia ou internação. Na educação, nossos indicadores também exigem uma reação urgente. Temos resultados muito baixos no Ideb, especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental. Não podemos aceitar que crianças cheguem ao final dessa etapa sem o aprendizado adequado. O problema de Itaguaí não é falta de dinheiro nem de potencial. É falta de planejamento, transparência, prioridade e gestão. Uma cidade arrasada administrativamente pode ser reconstruída. Com uma equipe competente, regularização fiscal, transparência e prioridades claras, Itaguaí pode voltar a crescer e transformar sua riqueza em qualidade de vida para a população.

Itaguaí vive uma inquietante instabilidade política. Que garantias o senhor oferece de estabilidade política e administrativa para Itaguaí em caso de eleição?

Itaguaí não precisa apenas eleger um novo prefeito; precisa encerrar um ciclo de crises, disputas e interrupções que impedem a cidade de planejar o futuro. Seria irresponsável prometer que nunca haverá divergências. O que posso garantir é uma forma diferente de governar, baseada no diálogo, no respeito às instituições, na legalidade e na transparência. Estabilidade não significa ausência de oposição; significa capacidade de conviver com as diferenças sem permitir que interesses políticos paralisem a administração. A primeira garantia será a formação de um governo técnico. A segunda será o diálogo institucional com a Câmara Municipal. A terceira será a segurança administrativa e jurídica. No início do governo, faremos um diagnóstico completo das finanças, dos contratos, das obras e das pendências do município. A partir disso, estabeleceremos prioridades, prazos e responsabilidades. Toda decisão importante deverá possuir respaldo técnico e jurídico, evitando improvisações que coloquem a Prefeitura em risco.

Caso eleito, o senhor pretende rever temas como mudanças na estrutura da Prefeitura, redução de cargos comissionados, revisão de contratos e auditoria nos gastos públicos?

Sim. Essas medidas estarão entre as primeiras providências do nosso governo. Itaguaí precisa saber exatamente qual é sua situação financeira, administrativa e contratual antes de assumir novos compromissos. Nos primeiros cem dias, realizaremos uma auditoria completa nas contas, nos contratos, nas folhas de pagamento, nas obras em andamento e nas obrigações deixadas pelas administrações anteriores. Essa auditoria será técnica, independente e transparente, sem perseguição política, mas também sem esconder qualquer irregularidade que venha a ser encontrada.

Concurso público será um compromisso de um eventual governo democrata em Itaguaí?

Sim. A realização de concurso público será um compromisso do nosso governo, porque uma administração estável e profissional precisa valorizar os servidores de carreira e reduzir a dependência de contratações temporárias e indicações políticas. Entretanto, seria irresponsável prometer uma data ou quantidade de vagas antes de conhecermos detalhadamente a situação administrativa e financeira da Prefeitura. Inicialmente, faremos um levantamento completo do quadro de pessoal para identificar cargos vagos, áreas com falta de profissionais, aposentadorias previstas e funções ocupadas de maneira temporária. Também verificaremos se existem concursos ainda vigentes e candidatos aprovados aguardando convocação. Havendo necessidade comprovada, disponibilidade orçamentária e respeito aos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, elaboraremos um calendário para novos concursos, priorizando áreas essenciais.

Que forças políticas e partidos estarão ao seu lado caso seja eleito?

A principal força política do nosso governo será a população de Itaguaí. Evidentemente, teremos o Democrata, partido que sustenta nossa candidatura, e construiremos diálogo com vereadores, deputados, senadores e lideranças de diferentes partidos que estejam dispostos a trabalhar pela cidade. Não pretendo governar preso a uma guerra ideológica ou limitado por disputas partidárias. Caso seja eleito, manterei diálogo institucional com o governador e o presidente eleitos, independente do partido ou da posição ideológica. Isso significa compreender que o prefeito tem a obrigação de defender os interesses do município. Minha prioridade será Itaguaí.

Como evitar que alianças políticas interfiram nas decisões técnicas da Prefeitura?

Alianças políticas são importantes para garantir diálogo e apoio a projetos, mas não podem substituir critérios técnicos nem transformar a Prefeitura em instrumento de grupos partidários. A primeira medida será não negociar secretarias ou contratos em troca de apoio. Quem caminhar conosco deverá compreender que a aliança será construída em torno de um programa para Itaguaí, e não da divisão antecipada da estrutura municipal. As nomeações considerarão formação, experiência, capacidade de liderança, reputação e conhecimento da área. Uma pessoa indicada por uma liderança política poderá integrar o governo, desde que seja qualificada, possua ficha compatível com a responsabilidade do cargo e aceite trabalhar com metas e avaliação permanente.

Qual é o compromisso que Marcelo Cunha assume hoje diante dos moradores de Itaguaí e que o eleitor poderá cobrar pessoalmente do senhor ao final do mandato?

O compromisso é o de entregar, ao final do mandato, uma Itaguaí administrativamente organizada, transparente e com serviços públicos funcionando melhor do que quando a recebemos. Nos primeiros meses, apresentaremos publicamente o diagnóstico financeiro, administrativo e contratual da Prefeitura. Em seguida, divulgaremos um plano de metas, com prazos, responsáveis e indicadores que permitam à população acompanhar o que foi prometido, o que foi realizado e quanto foi gasto. Não prometo que resolveremos em poucos anos tudo o que foi abandonado durante décadas. Essa seria uma promessa desonesta. Mas garanto que nenhum problema será escondido, nenhum recurso será tratado como propriedade de grupos políticos e nenhuma dificuldade servirá como desculpa para a omissão.

No seu programa de governo, o senhor fala em dar prioridade aos moradores em maior vulnerabilidade, sem discriminação e com acessibilidade. Como isso vai se tornar realidade numa eventual administração democrata?

Isso se tornará realidade quando a assistência social deixar de ser tratada como favor político e passar a funcionar como uma política pública permanente, organizada e acessível. Nenhum morador precisará apresentar indicação de vereador, liderança ou grupo político para ser atendido pela Prefeitura. Começaremos fortalecendo os CRAS, ampliando a busca ativa e atualizando o Cadastro Único. Muitas famílias vulneráveis sequer conseguem chegar aos serviços ou desconhecem os direitos que possuem. O poder público precisa enxergar a família integralmente e oferecer um caminho para a autonomia.

Seu programa também se refere à descentralização dos serviços e presença permanente da Prefeitura nos bairros. Como será isso?

Hoje, muitos moradores precisam se deslocar até o Centro para resolver questões simples, enquanto problemas nos bairros demoram semanas ou meses para chegar às secretarias responsáveis. Nossa proposta é aproximar a Prefeitura do cidadão. Criaremos núcleos regionais de atendimento, semelhantes a subprefeituras, distribuídos de forma estratégica pelo município. Serão estruturas enxutas, sem excesso de cargos e sem finalidade político-eleitoral. Sua função será receber demandas, oferecer serviços administrativos e coordenar as ações municipais em cada região.

O senhor assume aqui o compromisso de participar do debate que o Jornal Atual pretende realizar convidando os candidatos a prefeito?

Não apenas assumo publicamente esse compromisso como, desde já, confirmo minha participação no debate que o Jornal Atual pretende realizar. Considero o debate fundamental para que a população possa comparar propostas, preparo, conhecimento da cidade e capacidade de cada candidato para administrar Itaguaí. Faço também uma sugestão à organização: que o debate seja realizado sem celular, sem anotações ou papéis nas mãos e sem ponto eletrônico para receber orientações de assessores. Naturalmente, com regras previamente definidas, transparentes e iguais para todos os participantes. O candidato deve estar preparado para responder com o próprio conhecimento, defender suas propostas e demonstrar que compreende os problemas do município.

Leia também: Justiça indefere candidatura de Kelaine Goulart à Prefeitura de Itaguaí

Renato Reis

Renato Reis é bacharel em Comunicação Social, graduado em Jornalismo pela Universidade Gama Filho e atua como editor da edição digital do Jornal Atual.

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