De volta ao comando
Depois de uma conturbada gestão que culminou com a destituição do então presidente, Nilton Machado retorna à presidência da Associação dos Pescadores, Maricultores e Lazer do Sahy
Reconstruir o legado que consolidou como fundador e ex-presidente da Assopesca é o desafio que move Nilton Machado, agora num novo mandato que lhe foi conferido depois de uma crise de gestão que culminou com a saída de seu antecessor, Paulo Roberto Sant’anna. A decisão coletiva surgiu após vir à tona uma série de irregularidades atribuídas ao ex-dirigente, que acabou afastado durante uma assembleia a que sequer compareceu.

Entrevista ao ATUAL
Em seu primeiro dia no exercício do novo mandato, na segunda-feira (2), Nilton Machado recebeu o ATUAL, falando sobre o desafio inicial de informar aos associados a retomada das atividades da Assopesca, bem como de reorganizar a documentação pertinente. Desejando não perder tempo, em seu primeiro dia de trabalho, Nilton também já acertava detalhes de um curso de iniciação à navegação, buscando estimular uma nova geração de profissionais da pesca. O novo presidente disse também que outra prioridade nesse momento de retorno é respeitar a verdade acima de tudo e incentivar os associados a serem mais ativos e participativos na associação. Confira a íntegra da conversa dele com o ATUAL:
ATUAL – O que motivou a súbita interrupção do mandato do presidente anterior e o seu consequente retorno à presidência da Assopesca?
Nilton Machado: Alguns pescadores ouviram boatos de que ele não fazia mais parte da presidência da Assopesca; a ausência dele da associação; o convite que ele fez a alguns pescadores a se filiarem a outra associação criada por ele; a denúncia de pescadores de que ele estava comercializando kits doados à associação, que não poderiam ser comercializados; credores procurando por mim para liquidar dívidas feitas por ele em nome da Assopesca; irregularidades financeiras; falta de prestação de contas; omissões na gestão; e o abandono de função.
O seu agora antecessor parecia muito afinado com o legado que o senhor construiu no cargo. Foi grande a decepção?
Sim, pois sempre acreditei no seu potencial. Não sabia de nada que desabonasse sua conduta e acreditava que ele tinha muito amor pela Assopesca, como eu sempre tive.
Como recebeu a notícia da destituição e das acusações que pesaram contra o presidente anterior?
Eu não recebi a notícia da destituição. Devido às acusações de omissões na gestão, ao abandono de função, às irregularidades financeiras e à falta de prestação de contas, foi realizada uma assembleia extraordinária para votação da proposta de destituição do ex-presidente. Foi o que aconteceu.
Houve alguma auditoria para se chegar à constatação das irregularidades?
Não foi feita auditoria. As acusações foram baseadas em provas. Entretanto, foi dada a ele a oportunidade de prestar esclarecimentos e se defender, mas ele não o fez. E, ainda, mesmo notificado da assembleia extraordinária, não compareceu.
Já foi possível identificar o impacto das irregularidades na situação financeira e administrativa da Assopesca?
Ainda não temos o relatório final com o impacto das irregularidades, pois ainda há um levantamento entre credores, associados e outras entidades/associações envolvidas nessas ações realizadas pelo ex-presidente.
A Assopesca tem um histórico de boas relações com empresas e entidades que atuam na região. O ocorrido abala, de alguma forma, essa integração construída ao longo de anos?
Sim a Assopesca sempre teve um bom histórico com as empresas locais. Estas irregularidades provocadas por ele podem, sim, prejudicar a integração construída ao longo de anos. Porém, estamos fazendo todos os esclarecimentos possíveis para recuperar os danos causados pela má gestão anterior.
Quais os principais desafios ao reassumir a presidência da Assopesca?
Recuperar a confiança e a credibilidade de nossa classe de pescadores e das empresas parceiras que sempre confiaram na associação.
Que medidas estão sendo adotadas para garantir transparência e reorganização interna nesse novo ciclo?
Prestação de contas sobre o uso das doações na manutenção e nos projetos da entidade, e a regularidade financeira para a credibilidade e a idoneidade da instituição, com o objetivo de assegurar a preservação dos negócios e o relacionamento com os parceiros.
Como explicar aos associados e à sociedade o que aconteceu?
A explicação se deu em assembleia extraordinária, para os associados, que grande parte já vinha tendo conhecimento dos fatos. E quanto à sociedade, estamos utilizando os meios de comunicação possíveis para garantir total clareza e credibilidade da instituição.
Houve falta de atenção do Conselho Fiscal?
Não! Todos ficaram surpresos com as ações e atitudes do ex-presidente.
Ao reassumir a presidência, qual legado o senhor espera deixar?
Honestidade, trabalho, transparência, dedicação, muito amor e respeito à classe dos pescadores, que toda a nossa comunidade merece.
Como pretende restabelecer a confiança dos pescadores, maricultores e associados após esse período de instabilidade?
Com atitudes consistentes, paciência, coragem, determinação e, acima de tudo, verdade.
Que prioridades o senhor estabelece para os primeiros meses dessa nova gestão?
Recuperar a confiança dos pescadores, maricultores, associados, bem como, manter o bom histórico com as empresas parceiras.
A Assopesca pretende colaborar com investigações sobre a administração anterior?
Sim. Sobre irregularidades financeiras; falta de prestação de contas das verbas recebidas pela entidade; desvio de dinheiro; venda dos kits doados à associação, sem prestar contas a entidade, desviando completamente a sua finalidade; transferência via Pix, direto para o ex-presidente, para pagamento da mensalidade de associada da instituição, sem que o mesmo prestasse conta do valor; dívida com a Empresa Enel, prestadora de energia elétrica do município de Mangaratiba; corte da internet, por falta de pagamento, dentre outras irregularidades.
De que forma será essa colaboração?
Através dos meios legais.
Como será o diálogo com os associados para garantir participação e fiscalização mais efetiva daqui para frente?
Diálogo cada vez mais aberto, respeitoso, eficiente e transparente que fomente a participação de todos, para o fortalecimento da associação.
Existem mudanças previstas no estatuto ou nas regras internas para evitar novos episódios de irregularidades?
Não, mas o foco é intensificar fiscalização para prevenir irregularidades, que causem prejuízos à associação.
Qual é a situação dos projetos voltados à pesca, maricultura e atividades de lazer no Sahy?
Há um projeto de ofertar turmas presenciais de capacitação profissional voltadas para o mercado de trabalho, tendo como público-alvo moradores com idade igual ou superior a 18 anos, que residam próximos aos locais em que as turmas serão ofertadas. A metodologia do Conexão Empreendedora baseia-se na oferta de atividades formativas de curta duração. Há um projeto para proporcionar uma capacitação rápida em habilidades específicas aos moradores das regiões atendidas. Os cursos incluirão uma combinação de atividades teóricas e práticas. Em Mangaratiba teremos o curso de Segurança de Passageiros de Embarcação, ainda em negociação.
A partir de agora, como a Assopesca pretende contribuir para o desenvolvimento sustentável da comunidade local?
Buscando parcerias com investimentos que possam promover cursos de capacitação para a comunidade local. Com uma abordagem que integre saberes tradicionais e práticas modernas, buscamos não apenas promover o desenvolvimento econômico, mas também a preservação dos recursos naturais da região.
Que lição fica do episódio?
A verdade acima de tudo, o incentivo aos associados para serem mais ativos e participativos na associação, em todos os assuntos, em especial no que diz respeito à fiscalização de prestação de contas de projetos.
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