Malária resistente: Fiocruz obtém patente promissora para tratamento da infecção
O método utiliza o composto conhecido como DAQ, que demonstrou capacidade de atuar contra cepas mais fortes
A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conseguiu, em março deste ano, a patente de um método de tratamento que utiliza um composto considerado promissor no tratamento da malária, especialmente em casos resistentes aos medicamentos tradicionais.

A patente foi concedida pelo United States Patent and Trademark Office e reúne inventores do Instituto René Rachou, unidade da Fiocruz em Minas Gerais. Sua validade é até 5 de setembro de 2041.
O método utiliza o composto conhecido como DAQ, que demonstrou capacidade de atuar contra cepas resistentes do Plasmodium falciparum, parasita responsável pelas formas mais graves da doença. Semelhante a atuação da cloroquina, o composto interfere em um processo essencial para a sobrevivência do parasita. Durante a digestão da hemoglobina humana, o microrganismo produz substâncias tóxicas que normalmente consegue neutralizar. O DAQ bloqueia esse mecanismo de defesa, levando à morte do parasita.
Embora o DAQ não seja uma molécula inédita, já que sua atividade antimalárica foi descrita ainda na década de 1960, o grupo da Fiocruz coordenado pela pesquisadora Antoniana Krettli retomou os estudos utilizando abordagens mais recentes da química e da biologia molecular.
“Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasita, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, explica Wilian Cortopassi, pesquisador colaborador da Fiocruz.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é o baixo custo potencial da molécula, fator considerado estratégico para países de baixa e média renda, onde a malária permanece endêmica.
Malária
A Malária é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero Plasmodium, transmitidos principalmente pela picada da fêmea do mosquito Anopheles infectado.
Transfusão de sangue contaminado; compartilhamento de seringas infectadas; transmissão da mãe para o bebê (malária congênita) são formas de contágio mais raras, mas possíveis. A malária não é transmitida por abraço, beijo, contato físico, água ou alimentos.
Os principais sintomas costumam aparecer entre 7 e 30 dias após a infecção e incluem febre alta, calafrios, suor intenso, dor de cabeça, cansaço, náuseas e vômitos. Nos casos graves, pode causar anemia intensa, dificuldade respiratória, convulsões e até morte.
No Brasil, o diagnóstico e o tratamento são oferecidos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde. O protocolo depende do tipo de parasita e da gravidade da doença. Os medicamentos mais usados incluem cloroquina, primaquina, artemeter e lumefantrina.
Os pesquisadores alertam que, apesar da existência atual de tratamentos eficazes, o parasita da malária continua evoluindo e desenvolvendo resistência. Por isso, defendem que o desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas precisa ocorrer desde já, para evitar uma possível escassez de medicamentos eficazes no futuro.
Agora com a patente, os estudos se mostram promissores na ação rápida do composto DAQ nas fases iniciais da infecção e eficácia tanto contra cepas sensíveis quanto resistentes do Plasmodium falciparum.
Os estudos continuam
Apesar dos resultados considerados promissores, o desenvolvimento do DAQ como medicamento ainda depende de novas etapas, como testes de toxicidade, definição de doses seguras e eficazes e desenvolvimento da formulação farmacêutica adequada.
Para Antoniana Krettli, a estrutura da Fiocruz também pode acelerar futuras etapas de desenvolvimento do tratamento. “A instituição tem forte atuação na Amazônia, com diagnóstico e acompanhamento de pacientes, além de experiência em testes clínicos. Isso facilita parcerias e o avanço de novos medicamentos”, afirma.
As pesquisas contaram com colaboração de instituições como a University of California San Francisco, a Universidade Federal de Alagoas e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Novos estudos seguem em andamento em parceria com a Universidade Federal de São Paulo.









