Itaguaí: Câmara abre trabalhos legislativos do ano sem pauta com questões importantes
Quando não há oposição, é assim: ausência de temas relevantes, discursos mornos e muitas vezes apáticos, pautas insignificantes, projetos que não atacam a realidade bruta da cidade. Tudo isso se confirmou na primeira sessão legislativa da Câmara Municipal de Itaguaí (CMI), ocorrida na quinta-feira (3). Com tantos assuntos importantíssimos para tratar em prol da população de Itaguaí, a primeiríssima sessão do ano terminou com o saldo de uma Moção (um título que a CMI ou um vereador confere em homenagem a alguém) e 12 indicações, ou seja, 12 lembretes à Prefeitura sobre o que há para fazer na cidade. Fora isso, conforme registrou o texto sobre a sessão publicado no site da CMI, os vereadores fizeram discursos que serviram para afirmar o apoio ao presidente Gil Torres (PSL) e ao prefeito Rubem Vieira (Podemos). Problemas relevantes na cidade? A julgar pelos discursos, inexistem. Apenas alguns buracos para tapar e lâmpadas para trocar.
Ainda de acordo com o texto publicado oficialmente, Vinícius Alves (Republicanos), Fábio Rocha (PL), Julinho (PSC) e Sandro da Hermínio (PP) concordam no seguinte: 1) apesar da pandemia, o prefeito Rubem Vieira consegue realizar melhorias significativas; 2) ninguém dará as costas a uma decisão do presidente Gil Torres; 3) existe um ótimo diálogo entre os parlamentares municipais.
Em seu discurso, Vinícius Alves disse sobre o presidente Gil Torres: “Quero estar ao seu lado, como sempre estive”.
Ocorre, porém, que o vereador não esteve sempre ao lado de Torres. Ele compôs a Mesa Diretora do agora ex-presidente Haroldo Jesus (PV) em janeiro de 2021, na posição de vice-presidente. Na mesma composição, Julinho foi segundo vice-presidente, Fábio Rocha terceiro vice-presidente e Sandro da Hermínio segundo secretário.
Cabe lembrar que Haroldo surpreendeu ao se eleger presidente quando a expectativa do prefeito Rubem Vieira era a de que Gil Torres assumisse o cargo. Isso só foi possível com o apoio – e os votos – dos vereadores acima mencionados, mais o voto de José Domingos (PTB), que naquela Mesa Diretora ocupou o cargo de terceiro vice-presidente.
Seis meses depois, em outra reviravolta típica do poder em Itaguaí, Haroldo foi quicado do cargo e Torres assumiu a presidência, sob o apoio da maioria absoluta de vereadores. De lá para cá, qualquer tipo de oposição deixou de existir e uma unanimidade insistente faz coro com o governo municipal.
TEMAS IGNORADOS
O ATUAL tem publicado matérias com temas que são importantes para a população itaguaiense e sobre os quais os vereadores sequer mencionaram na primeira sessão legislativa do ano.
Um deles continua no centro das discussões e da preocupação dos pais e responsáveis: a volta às aulas de modo presencial, com a variante Ômicron do coronavírus provocando um aumento no número de casos e de mortes. Não se tocou no assunto, pelo menos não a partir do texto publicado no site da CMI.
Da mesma maneira, a questão dos animais abandonados na cidade, com a ausência de políticas públicas e os últimos ataques de jacaré a cães na área da Expo (e iminente risco para crianças) também não mereceu análise dos vereadores.
Outro assunto que movimentou as redes sociais e que fez disparar os acessos ao site do ATUAL foi o roubo dos notebooks comprados pela Secretaria Municipal de Educação para empréstimo aos professores. As muitas perguntas sem resposta que se seguiram à divulgação da recuperação de alguns dos equipamentos comprados com dinheiro público não chamaram a atenção dos parlamentares.
Quanto às obras e providências em função das chuvas torrenciais que, certamente, vão se repetir na cidade e provocar alagamentos, nenhuma palavra.
Assim como os feitos das comissões fixas da Câmara, que mereceram uma matéria questionadora do ATUAL e sobre a qual a CMI não se manifestou de modo satisfatório.
A CMI também negou esta semana à reportagem o projeto de lei com o Plano de Cargos e Salários, aprovado na semana passada e enviado ao Executivo para sanção, sob o argumento de que só poderia enviá-lo depois de sancionado. O projeto de lei foi aprovado sem discussões ou participação popular e da imprensa. Mesmo público, teve divulgação negada à reportagem, cuja intenção é analisá-lo e divulgá-lo para a população.
Nesta primeira sessão de 2022, em vez de apontar os desafios que a cidade tem pela frente em mais um ano difícil e os problemas urgentes que precisam de atenção, os vereadores acharam por bem reafirmar apoio com elogios ao presidente da Câmara e ao prefeito, além de ressaltar o clima de harmonia entre os pares.
Talvez (quem sabe) na segunda sessão do ano legislativo os temas que compõem os discursos sejam diferentes e repercutam algumas dessas e outras necessidades urgentes da população.