A casa da educação em sintonia com as cidades

março 22, 2013 Nenhum Comentário »

ENTREVISTA: Ana Maria Dantas Soares, reitora eleita da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Prestes a assumir a reitoria de uma das mais importantes universidades brasileiras, a professora Ana Dantas fala sobre os desafios que vai enfrentar no cargo, que pela primeira vez será exercido por uma mulher

RENATO REIS

renato.reis@jornalatual.com.br

Quando assumir a reitoria da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, sucedendo o colega Ricardo Mota Miranda, de quem foi vice-reitora em seus dois mandatos, a professora Ana Maria Dantas Soares estará marcando para sempre a centenária história da instituição, inscrevendo seu nome como o da primeira mulher a exercer o cargo. “São vários sentimentos e uma emoção muito grande”, disse ela, em recente entrevista ao ATUAL, ainda em seu gabinete como vice-reitora. O pioneirismo que marca a ascensão acadêmica dessa carioca criada em Sergipe incorpora ainda outro feito, pois ela será a primeira reitora genuinamente oriunda da área de Educação. Graduada em Pedagogia, a professora Ana Dantas é especialista em planejamento e administração universitária, tem mestrado em Educação e doutorado em Ciências Sociais, Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Na entrevista que segue, ela fala sobre o desafio que passa a enfrentar como gestora, adianta o que pretende priorizar em seu mandato e aponta o que considera prioritário e essencial nesse momento. Na conversa com a professora Ana Dantas fica claro que uma de suas preocupações é manter e até acentuar a proximidade entre a universidade e a comunidade, aliás, uma lacuna que, em geral, caracteriza o ensino superior em nível nacional. “Queremos construir uma universidade inserindo os nossos campus nas realidades das cidades em que estamos, respondendo aos anseios dessas comunidades”, justifica ela.

Professora Ana Dantas CAPA

A PROFESSORA Ana Dantas é a primeira mulher a ascender à direção da centenária UFRuralRJ. (FOTONATÁLIA FIGUEIREDO)

ATUAL – Qual a emoção de ser a primeira mulher a chegar à Reitoria da UFRuralRJ?

Ana Dantas: São vários sentimentos e uma emoção muito grande assumir uma universidade de tradição como a UFRuralRJ. Mas tenho com isso a responsabilidade duplicada de atender às expectativas das comunidades. É uma tarefa árdua cuidar dos campus de Seropédica, Nova Iguaçu, Três Rios e Campos, uma responsabilidade enorme. Só tenho que agradecer à comunidade que me elegeu para essa responsabilidade com um conjunto de propostas coletivas de construção de uma universidade.

 Que universidade é essa a ser construída?

Uma universidade cada vez mais inserida na perspectiva do desenvolvimento sustentável, capaz de produzir ciência e tecnologia de acordo com as demandas da sociedade, como a UFRuralRJ já vem fazendo.

 Como?

Inserindo os campus nas realidades das cidades em que estamos, respondendo aos anseios dessas comunidades, promovendo o diálogo socioambiental. Hoje não se pode pensar a sociedade sem a preocupação nesse sentido.

 Em nível administrativo, qual é o maior desafio?

É consolidar o nosso crescimento. Temos obras em andamento e outras a realizar. A nossa preocupação é também com a melhor qualidade do ensino para que os nossos alunos sejam grandes profissionais capazes de atender com competências as demandas de nossa realidade.

 A UFRuralRJ é um excepcional centro de produção de conhecimento, mas inserido numa cidade e região com muitas carências. O que se pode fazer para que a produção científica daqui de dentro produza efetivos impactos na vida de quem está à sua volta?

Essa aproximação deve ser através da educação, desde o Ensino Fundamental e Médio. É de onde a gente está para chegar às famílias. A universidade é uma casa de educação e como tal deve se inserir nos projetos das cidades, juntar sua expertise às demandas do poder público municipal. É a extensão acontecendo.

 Como encurtar esse caminho?

É não pensar a universidade como aquela que sabe tudo e que só vai ensinar. Ela tem de interagir com a comunidade através de projetos e programas que atendam às suas demandas, e aprender com ela.

 A senhora pode dar um exemplo prático dessa estratégia?

É continuar o que já temos feito, com a capacitação continuada de professores, com a educação especial e ambiental, com atividades junto à Secretaria de Meio Ambiente, em discussões sobre saneamento.

 A questão do aterro sanitário está aí incluída?

É uma questão que ainda está jub-judice. Nós nos manifestamos de forma a passar para eles a impropriedade do aterro sobre o Aquífero Piranema e as consequências negativas para as comunidades. Essas são questões muito caras à universidade.

 Quais são as prioridades da gestão?

A nossa candidatura veio com a chapa “Tempo de Viver Melhor”. Nosso mote é consolidar a expansão com qualidade. Nós tivemos um processo de expansão acelerado, triplicamos os cursos, por isso temos que atender questões de infraestrutura. Faltam laboratórios, salas. Há um conjunto de obras a serem feitas, precisamos adquirir equipamentos, isso tudo para garantir a qualidade do atendimento aos nossos alunos e condições de trabalho para os nossos professores e todo o nosso pessoal.

 Trata-se de um enorme desafio, não?

Temos que garantir os recursos para tocar as obras em andamento e para fazer novas, como a ampliação do nosso restaurante universitário aqui em Seropédica e o de Três Rios também, onde estudamos a possibilidade de construir ainda alojamento. O Caic e o Colégio Técnico da UFruralRJ também merecem atenção, precisamos contratar pessoal para atender à crescente demanda, reformar a sua parte física. Como disse, são várias frentes. O nosso objetivo é terminar o que está aí e começar o necessário.

 Qual a sua expectativa com relação a todos esses projetos?

Tenho muita fé e esperança  de que nossas comunidades, juntas, vão contribuir no processo de melhoria da universidade. Todas essas ações vão fazer com que a universidade cumpra sua missão fundamental, que é qualificar jovens para a inserção profissional na sociedade. Hoje me orgulho de já termos muitos jovens de Seropédica aqui dentro. Hoje já temos bastante gente  originária de escolas públicas também.

 E por falar nisso, e as cotas?

Nós já tínhamos a cota da escola pública, mas já estamos com a cota racial adequadamente aprovada pelos órgãos competentes. A questão é que as políticas afirmativas não devem focar só no ingresso na universidade. Não é só entrar, mas estudar

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