ENTREVISTA: Ana Maria Dantas Soares, reitora eleita da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Prestes a assumir a reitoria de uma das mais importantes universidades brasileiras, a professora Ana Dantas fala sobre os desafios que vai enfrentar no cargo, que pela primeira vez será exercido por uma mulher
RENATO REIS
renato.reis@jornalatual.com.br
Quando assumir a reitoria da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, sucedendo o colega Ricardo Mota Miranda, de quem foi vice-reitora em seus dois mandatos, a professora Ana Maria Dantas Soares estará marcando para sempre a centenária história da instituição, inscrevendo seu nome como o da primeira mulher a exercer o cargo. “São vários sentimentos e uma emoção muito grande”, disse ela, em recente entrevista ao ATUAL, ainda em seu gabinete como vice-reitora. O pioneirismo que marca a ascensão acadêmica dessa carioca criada em Sergipe incorpora ainda outro feito, pois ela será a primeira reitora genuinamente oriunda da área de Educação. Graduada em Pedagogia, a professora Ana Dantas é especialista em planejamento e administração universitária, tem mestrado em Educação e doutorado em Ciências Sociais, Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Na entrevista que segue, ela fala sobre o desafio que passa a enfrentar como gestora, adianta o que pretende priorizar em seu mandato e aponta o que considera prioritário e essencial nesse momento. Na conversa com a professora Ana Dantas fica claro que uma de suas preocupações é manter e até acentuar a proximidade entre a universidade e a comunidade, aliás, uma lacuna que, em geral, caracteriza o ensino superior em nível nacional. “Queremos construir uma universidade inserindo os nossos campus nas realidades das cidades em que estamos, respondendo aos anseios dessas comunidades”, justifica ela.
A PROFESSORA Ana Dantas é a primeira mulher a ascender à direção da centenária UFRuralRJ. (FOTONATÁLIA FIGUEIREDO)
ATUAL – Qual a emoção de ser a primeira mulher a chegar à Reitoria da UFRuralRJ?
Ana Dantas: São vários sentimentos e uma emoção muito grande assumir uma universidade de tradição como a UFRuralRJ. Mas tenho com isso a responsabilidade duplicada de atender às expectativas das comunidades. É uma tarefa árdua cuidar dos campus de Seropédica, Nova Iguaçu, Três Rios e Campos, uma responsabilidade enorme. Só tenho que agradecer à comunidade que me elegeu para essa responsabilidade com um conjunto de propostas coletivas de construção de uma universidade.
Que universidade é essa a ser construída?
Uma universidade cada vez mais inserida na perspectiva do desenvolvimento sustentável, capaz de produzir ciência e tecnologia de acordo com as demandas da sociedade, como a UFRuralRJ já vem fazendo.
Como?
Inserindo os campus nas realidades das cidades em que estamos, respondendo aos anseios dessas comunidades, promovendo o diálogo socioambiental. Hoje não se pode pensar a sociedade sem a preocupação nesse sentido.
Em nível administrativo, qual é o maior desafio?
É consolidar o nosso crescimento. Temos obras em andamento e outras a realizar. A nossa preocupação é também com a melhor qualidade do ensino para que os nossos alunos sejam grandes profissionais capazes de atender com competências as demandas de nossa realidade.
A UFRuralRJ é um excepcional centro de produção de conhecimento, mas inserido numa cidade e região com muitas carências. O que se pode fazer para que a produção científica daqui de dentro produza efetivos impactos na vida de quem está à sua volta?
Essa aproximação deve ser através da educação, desde o Ensino Fundamental e Médio. É de onde a gente está para chegar às famílias. A universidade é uma casa de educação e como tal deve se inserir nos projetos das cidades, juntar sua expertise às demandas do poder público municipal. É a extensão acontecendo.
Como encurtar esse caminho?
É não pensar a universidade como aquela que sabe tudo e que só vai ensinar. Ela tem de interagir com a comunidade através de projetos e programas que atendam às suas demandas, e aprender com ela.
A senhora pode dar um exemplo prático dessa estratégia?
É continuar o que já temos feito, com a capacitação continuada de professores, com a educação especial e ambiental, com atividades junto à Secretaria de Meio Ambiente, em discussões sobre saneamento.
A questão do aterro sanitário está aí incluída?
É uma questão que ainda está jub-judice. Nós nos manifestamos de forma a passar para eles a impropriedade do aterro sobre o Aquífero Piranema e as consequências negativas para as comunidades. Essas são questões muito caras à universidade.
Quais são as prioridades da gestão?
A nossa candidatura veio com a chapa “Tempo de Viver Melhor”. Nosso mote é consolidar a expansão com qualidade. Nós tivemos um processo de expansão acelerado, triplicamos os cursos, por isso temos que atender questões de infraestrutura. Faltam laboratórios, salas. Há um conjunto de obras a serem feitas, precisamos adquirir equipamentos, isso tudo para garantir a qualidade do atendimento aos nossos alunos e condições de trabalho para os nossos professores e todo o nosso pessoal.
Trata-se de um enorme desafio, não?
Temos que garantir os recursos para tocar as obras em andamento e para fazer novas, como a ampliação do nosso restaurante universitário aqui em Seropédica e o de Três Rios também, onde estudamos a possibilidade de construir ainda alojamento. O Caic e o Colégio Técnico da UFruralRJ também merecem atenção, precisamos contratar pessoal para atender à crescente demanda, reformar a sua parte física. Como disse, são várias frentes. O nosso objetivo é terminar o que está aí e começar o necessário.
Qual a sua expectativa com relação a todos esses projetos?
Tenho muita fé e esperança de que nossas comunidades, juntas, vão contribuir no processo de melhoria da universidade. Todas essas ações vão fazer com que a universidade cumpra sua missão fundamental, que é qualificar jovens para a inserção profissional na sociedade. Hoje me orgulho de já termos muitos jovens de Seropédica aqui dentro. Hoje já temos bastante gente originária de escolas públicas também.
E por falar nisso, e as cotas?
Nós já tínhamos a cota da escola pública, mas já estamos com a cota racial adequadamente aprovada pelos órgãos competentes. A questão é que as políticas afirmativas não devem focar só no ingresso na universidade. Não é só entrar, mas estudar


















