GENTE QUE FAZ
De todo o estado, o primeiro mel de abelhas nativas legalizado é produzido em Itacuruçá. Produtor garante, nessa novidade, mais qualidade e sabor
Dá pra ganhar dinheiro. Mas, é preciso muito cuidado com a higiene, para não haver contaminação, e a dedicação é absoluta à atividade.
O Sítio Nosso Sonho, localizado no distrito de Itacuruçá, em Mangaratiba, comandado pelo proprietário e produtor rural, Sebastião dos Santos Filho, comporta um meliponário, local destinado a criação de abelhas, que abastece toda a região da Costa Verde. Há seis anos trabalhando com a apicultura, Santos é dono do primeiro entreposto de mel de Seropédica à Paraty. Neste ano, a atividade desenvolvida por ele recebeu o reconhecimento pioneiro na extração, armazenamento e distribuição do mel das melíponas pela Secretaria de Agricultura e Pecuária do Rio de Janeiro. “Tive muito trabalho de pesquisa e análise laboratorial, junto à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e alguns agricultores para legalizar o produto. O importante é valorizar o trabalho do produtor. O processo é trabalhoso e a remuneração é baixa. Então, um dos objetivos nesse projeto junto à Rural é incentivar a atividade da apicultura dentro do Rio de Janeiro e ajudar os agricultores. Mostrar que é possível”, afirma o produtor.
A certificação permite, entre outras coisas, que se tenha confiança na higiene e pureza do produto. Além disso, também exige mais vigilância na atividade de rotulação das embalagens, como na garantia de fidelidade acerca das informações nutricionais no rótulo do produto que é publicado no Diário Oficial. “Prezo muito pela higiene. Somente eu entro no entreposto para armazenar o mel. E, sempre de luvas, touca e proteção para sapatos descartáveis. Além disso, tudo aqui é de aço inox e extremamente esterilizado”, garante Santos.
De acordo com o manual do guia turístico fornecido pelo produtor, as melíponas são espécies de abelhas indígenas, que reunidas, somam mais de 300 no Brasil. São ideais para compor ambientes externos como jardins e quintais. Têm seus ferrões atrofiados, são mansas e possuem rara beleza. Elas são responsáveis pela polinização das plantas e fundamentais ao cruzamento de espécies nas regiões tropicais. “Quase todas as espécies de plantas que eu tenho no meu sítio, inclusive as orquídeas, são de cruzamentos proporcionados pela polinização dessas abelhas. É necessário que se tenha essa consciência para não matarmos as abelhas, que não nos oferece riscos, muito pelo contrário”, atenta.
Um mel com propriedades medicinais, afrodisíacas e excêntrico no sabor
Na frente, o mel nativo do Brasil com coloração mais clara do que o mel tradicional. (FOTO RENATA CRISTINA)
Santos ressalta o diferencial do mel produzido por essa família de abelhas. “Eu produzo 200 quilos de mel das ápis, abelhas africanas, por mês. Esse é o mel tradicional, que nos dá subsídios para aumentar os ninhos das melíponas. Já o mel dessas abelhas nativas, é quase artesanal. Apenas 12 quilos mensais são recolhidos. Ele é mais azedinho, exótico e possui substâncias afrodisíacas e também medicinais”, conta o apicultor.
Segundo ele, grande parte da produção é vendida para hotéis de luxo no Rio de Janeiro e para pessoas que trabalham com a alta gastronomia na região. “É um artigo de luxo porque a extração é bem mais demorada, feita inclusive com seringas. Acaba que isso reflete no preço. Cobro 20 reais na garrafinha de 60 gramas, enquanto o mel tradicional vale 10 reais meio quilo. Mas, a qualidade é garantida”, afirma e completa “O trabalho com esse produto é especial. A higiene redobrada e, além disso, ele fermenta e possui o índice de umidade muito alto. Tem de ser armazenado em geladeira e passa por um processo lento para retirar essa umidade e levar às prateleiras no comércio”.
Para subsidiar esse empreendimento, Sebastião dos Santos Filho contou com o apoio do Governo Federal, a partir do Projeto Prosperar Agricultura Familiar, que auxilia os produtores da agroindústria. O programa concede financiamentos para investimento e custeio de atividades de agrocultivo familiar no valor de 50 mil e 150 mil, respectivamente, com recursos do Fundes (Fundo de Desenvolvimento Econômico e Social) e Pronaf Agroindústria, financiados por meio do Banco do Brasil.
Há dois anos, Santos recebeu um valor de incentivo a ser quitado em até cinco anos com 2% de juros ao ano. “Tive de comprovar minhas terras e que era do ramo da agroindústria. É uma ótima opção para nós, produtores. Com essa quantia, investi em equipamentos e alguns funcionários”, conta.
Segundo especialistas, muito mais que uma fonte de energias, o mel é rico em glicídios, vitaminas e sais minerais. Enquanto o açúcar refinado favorece o acúmulo de gorduras, o mel ajuda na digestão e na eliminação de toxinas. O mel “Biodiversidade”, da produção do Sítio Nosso Sonho, pode ser encontrado no comércio da região, além de mercados em Itacuruçá, como o Mercado Vitória e o Mercado Costa Verde.
Projeto Abelha Natureza integra ensino e vivência
No Japão, a polinização é feita manualmente pelos agricultores. A do maracujá, por exemplo. No Brasil, nós temos isso tudo e não damos o devido valor
Reconhecida internacionalmente, Maria Cristina Lorenzon, professora de Zootecnia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), comanda o projeto Abelha Natureza. Com o apoio da UFRRJ, da Fundação Instituto de Florestas, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Apoio a Pesquisa (Faperj), o projeto atua desde 2004 para se integrar a outras iniciativas de sustentabilidade para proteção do bioma da Mata Atlântica e da comunidade humana que vive na região. A equipe, formada por alunos e comunidade local, realiza pesquisas e atividades de extensão para proteger a fauna e flora de abelhas silvestres e valorizar o patrimônio nacional que elas constituem. O Sítio Nosso Sonho é um dos pontos onde o projeto atua. “Recebemos visitas frequentes de graduandos em zootecnia, veterinária e biologia e os demais interessados em apicultura da Rural. A atividade não se restringe a um curso definido”, conta Santos. O Projeto ampliou suas ações para todo o estado do Rio de Janeiro, ao compor representatividade junto a Câmara Setorial de Apicultura junto à Secretaria de Agricultura do Estado do Rio (SEAPEC), auxiliando o segmento apícola e meliponícula para prover profissionais com perfil do agronegócio.
- Minúsculas no tamanho, as abelhas nativas produzem um mel com sabor diferenciado. (FOTO RENATA CRISTINA)
O Sítio Nosso Sonho, é um dos espaços que aposta no projeto. “Pretendo trazer, além dos alunos da Rural, estudantes, principalmente da rede pública de ensino, para conhecer os processos de rotulação e envasamento. Aproveitando para instruí-los sobre a necessidade da preservação dessas espécies”, conclui o dono.


















