Língua: O que muda e o que permanece?

fevereiro 19, 2013 Nenhum Comentário »

EDUCAÇÃO

Entenda as minúcias do acordo da língua portuguesa prorrogado para 2016

SEROPÉDICA - LÍNGUA

Durante palestra na UFRuralRJ, a professora Tânia Mikaela debate as alterações na ortografia da língua portuguesa e suas motivações. (FOTOS NATÁLIA FIGUEIREDO)

Natália Figueiredo

natalia.figueiredo@jornalatual.com.br

Reforma, unificação ou simplesmente um acordo entre os países de Língua Portuguesa? De acordo com a professora e doutora em Linguística da UFRuralRJ, Tânia Mikaela, as novas regras de ortografia tem um caráter apenas de acordo entre os países lusófonos, pensado em padronizar a escrita, sem interferir nas diversidades da oralidade. “As mudança são apenas ortográficas, mas as diferenças estão em tudo, na utilização dos pronomes, na oralidade, na sintaxe, semântica, é ingenuidade pensar em uma unificação através de um documento em meio a tantas diferenças”, afirmou.

No geral, para os brasileiros as mudanças são pequenas, apenas 4% da língua, o que não representaria uma reforma. Já para os portugueses as mudanças são um pouco maiores, o que gera maior resistência para adotar as novas regras. Além de se tratar de um país europeu não tão aberto a alterações em sua língua mãe. O acordo assinado em 2009 para entrar em vigor obrigatoriamente em 2013, foi prorrogado para 2016, a fim de resolver certas resistências as alterações diplomaticamente. “A função da escrita é padronizar a variação natural da oralidade, em uma tentativa de que todos os falantes da mesma língua se entendam”, acrescentou. Para tirar dúvidas sobre as mudanças na ortografia à professora aconselha consultar ao invés de dicionários, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, VOLP, disponível em livrarias ou no site da Academia Brasileira de Letras. “Este é o único livro que poderá dar certeza da maneira oficial utilizada, dicionários vez ou outra poderão ter alterações da interpretação de cada autor”, completou. Dentre os motivos que influenciam os esforços do governo brasileiro em adotar o novo modelo unificado estão também os interesses no mercado editorial europeu, dominado por Portugal e muito mais lucrativo que o nacional.

Alterações da língua

De maneira geral, algumas regras já haviam sido incorporadas em nosso vocabulário muito antes da obrigatoriedade do acordo. Como por exemplo, inclusão das letras K, W e Y contabilizando 26 letras no alfabeto, a queda do trema (já pouco utilizado) e certas sequências consonânticas no interior de palavras que ganharam dupla grafia como amígdala ou amídala. Outras regras mais comentadas foram à queda do acento diferencial de palavras homógrafas (para, pelo), as vogais dobradas oo e ee em hiato não são mais acentuadas (voo, veem) e a queda do acento agudo em palavras paroxítonas com ditongo abertos (assembleia, ideia). Já o uso do hífen ganha algumas divergências, este mantêm-se em nomes que designam espécies botânicas e zoológicas, porém não é mais utilizado em palavras formadas de prefixos terminados em vogal +

‘r’ ou ‘s’, sendo esses dobrados (antessala, ultrassonografia); também é cortado em prefixos terminados em vogal + palavra iniciada com vogal diferente (Regra dos opostos se atraem; autoescola, infraestrutura). Inversamente quando a palavra for formada por prefixo terminado em vogal + uma palavra com a mesma vogal mantém o hífen (anti-inflamatório, micro-ondas), com exceção para prefixo CO, o qual não se usa o hífen em palavras iniciadas por O. No entanto, as regras que geram mais dúvidas pela subjetividade ou falta de clareza são a queda do hífen em compostos que “perderam a noção de composição”, como: mandachuva e paraquedas, mas permanecem em guarda-chuva ou segunda-feira. Cai também em locuções de qualquer tipo, como: cão de guarda, pé de moleque ou sala de jantar, mas permanece em locuções consideradas “consagradas pela língua”, como: água-de-colônia, arco-da-velha e cor-de-rosa. Bem como, nomes que designam domínios do saber, pontos cardeais e axiônimos perdem a obrigatoriedade de letra maiúscula (ex: linguística, norte e doutor). Ou seja, decorar tudo só com o tempo, ainda bem que há pelo menos mais três anos para nos acostumar e qualquer dúvida é só correr para o VOLP.

As mudança são apenas ortográficas, mas as diferenças estão em tudo, na utilização dos pronomes, na oralidade, na sintaxe, é ingenuidade pensar em uma unificação através de um documento em meio a tantas diferenças

Deixe um comentário

Você precisa estar Logado para comentar.