O perigo mora ao lado

janeiro 23, 2013 Nenhum Comentário »

MEIO AMBIENTE

Pesquisadores apresentam impactos socioambientais nas comunidades tradicionais próximas a grandes empreendimentos

A palestra debateu soluções para problemas que assolam a região como o depósito de lixo inadequado e a poluição - FOTOS NATÁLIA FIGUEIREDO

A palestra debateu soluções para problemas que assolam a região como o depósito de lixo inadequado e a poluição – FOTOS NATÁLIA FIGUEIREDO

Natália Figueiredo

Natalia.figueiredo@jornalatual.com.br

A IX Semana de Extensão da UFRuralRJ iniciou trazendo debates muito presentes e importantes para as cidades da região. Como as sequelas e prejuízos, tanto para o meio ambiente quanto para as comunidades tradicionais, que vem recebendo os grandes empreendimentos na área da Baía de Sepetiba e da Baía de Guanabara, assim como quais as alternativas. Na tarde de ontem (22), o Pró-Reitor de Extensão José Cláudio de Souza, recebeu no Salão Azul do Prédio Central da UFRuralRJ, o ambientalista e participante do Conselho Estadual do Meio Ambiente, Sérgio Ricardo, além  do Engenheiro sanitarista ambiental e pesquisador da Fiocruz, Alexandre Pessoa.

O Brasil tem a maior rede de bacias hidrográficas do planeta e o preço da água é mais caro que o da gasolina

Sérgio Ricardo iniciou a fala indicando a banalização da palavra sustentável. “Este é o tipo de conceito que serve para tudo e ao mesmo tempo para nada”, diz. O ambientalista afirma que o mapa estratégico com as grandes empresas instaladas no entorno do Rio de Janeiro nasceram com o apoio político e da Firjan, mas sem planejamento de zoneamento ecológico econômico e costeiro. “Os estudos técnicos para a proposta de licenciamento de uma siderúrgica, no entorno da baía de Sepetiba, foram feitos isoladamente, individualizados, se estuda somente a fábrica para a liberação, mas não se vê que há uma termoelétrica ao lado, um porto, etc. É um erro, a ThyssenKrupp  não foi autorizada a operar na Alemanha, mas veio para a Zona Oeste”, diz. Segundo o ambientalista, o argumento para licenciar esses empreendimentos altamente poluidores, com tecnologias sujas, tem haver com a posição do órgão ambiental, em especial o INEA, o qual caracteriza em sua EIA RIMA que os ambientes estão degradados, mesmo com sete mil pescadores na área. “A agricultura familiar e a pesca artesanal ficam na invisibilidade”, complementa. A moeda de troca das empresas é sua oferta de emprego em áreas não desenvolvidas, uma chantagem do emprego, mas com pouca efetividade. “A TKCSA começou contratando entre 20 e 30 mil empregos na fase da obra, hoje há 1700 funcionários técnicos na fábrica, com dados oficiais, entre eles muitos alemães e chineses”, afirmou.

Lixo e fonte de renda

Para Ricardo a baixada fluminense sempre foi tratada como o grande receptor de lixo do Rio de Janeiro, conceito que iniciou em 1974 no aterro de Gramacho e se repete agora em Seropédica, em suas palavras um racismo ambiental. “A Baía de Sepetiba está viva, a Baía de Guanabara também, hoje com 12% do espelho d’água disponível para a pesca. Mas correndo sério risco”, contou. Para o especialista há muitas alternativas possíveis caso haja vontade das prefeituras e mobilização popular. Entre elas a coleta seletiva, uma ação básica para os municípios, mas que ainda não funciona efetivamente no Rio de Janeiro, essa precisa ser implantada pelas prefeituras e sob o auxilio das cooperativas de catadores. Usinas de geração de energia, de incineração ou bio digestão anaeróbica, que ocupam espaços menores e geram bio massa para adubo ecológico. Além da separação do lixo orgânico para adubo, que hoje representa 60% de todo o lixo recolhido e uma alternativa para os adubos químicos. “O que acontece é a máfia do lixo, os aterros sanitários são bombas de gás metano e chorume que não tem futuro. Eles necessitam de uma área extensa, tem gasto muito elevado com transporte e pouca durabilidade, pois o solo não aguenta pouco mais de 20 anos e sempre precisa se mudar para lugares mais distantes”, diz. Ele explica que 18% de todo o PIB do país é destinado para enterrar lixo, onde o contribuinte paga três vezes, para recolher, transportar e depois descontaminar. Lixo que poderia estar gerando renda através da reciclagem, estudos comprovam que o Brasil enterra cerca de oito bilhões de reais por dia.

Existe hoje no Rio de Janeiro a indústria das multas. A empresa ganha até quando é multada

Alexandre Pessoa confronta: “Chove prata na cabeça das pessoas e elas não se mobilizam, por medo ou coerção”

Alexandre Pessoa confronta: “Chove prata na cabeça das pessoas e elas não se mobilizam, por medo ou coerção”

18% de todo o PIB do país é destinado para enterrar lixo, onde o contribuinte paga três vezes, para recolher, transportar e depois descontaminar

Saúde Pública

O pesquisador e militante, Alexandre Pessoa, afirma que podem haver quantas UPAs e hospitais forem necessárias, mas em um cenário de degradação e poluição a população estará sempre doente. “Existe hoje no Rio de Janeiro a indústria das multas. A empresa ganha até quando é multada, porque não há um controle de valores e o que acontece é um marketing de governo e para a empresa, mas não uma fiscalização de prevenção daquele acidente. E nós naturalizamos isso ao assistir constantemente na televisão os acidentes ambientais. Chove prata na cabeça das pessoas e elas não se mobilizam, por medo ou coerção”, afirmou.

Junto aos perigos do agronegócio o pesquisador também ressalta o hidronegócio, que vem causando impacto junto aos grandes empreendimentos. “O Brasil tem a maior rede de bacias hidrográficas do planeta e o preço da água é mais caro que o da gasolina é só comparar litro por litro, ainda se morre de cede no nordeste e não por um problema climático, mas por um problema sociocultural”, completou.

Para o pesquisador as mudanças só podem acontecer através de mobilização, tanto popular, quanto acadêmica para analisar o seu entorno. “A chantagem do emprego não pode ser engolida, pois ela acaba, as empresas vão embora e as doenças e a poluição continuam como foi o caso da Ingá, na Ilha da Madeira, que declarou falência”, afirmou.

A ThyssenKrupp não foi autorizada a operar na Alemanha, mas veio para a Zona Oeste

A TKCSA já vem sendo processada e provavelmente será indiciada pela justiça a pagar indenização aos moradores da região, em um momento em que o preço do aço internacional cai e a empresa anuncia estar à venda. Será que este final será diferente?

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