As cores vivas dos bate-bolas

março 12, 2014 Nenhum Comentário »

Em Itaguaí, diversas turmas alimentam a tradição que vem de séculos: o clóvis

A festa começa é com um bom churrasco e toda a galera reunida! No “esquenta” para o início da folia, o que não prevalece é a rivalidade. É assim que as turmas de Itaguaí não deixam morrer uma tradição que veio dos europeus, recebeu influências de diversas festas brasileiras e se transformou no que hoje chamam de Bate-bola.
No princípio, os foliões desfilavam pelas ruas com fantasias que se assemelhavam à de palhaços batendo no chão com suas bexigas de boi presas a uma corda ou uma vara. A intenção era que fosse assustador.Na cidade do Rio de Janeiro, a tradição sempre esteve ligada à cultura da periferia. Em bairros como os da zona norte e oeste, a tradição é forte. Não é diferente na Baixada Fluminense. Em Itaguaí diversas ‘turmas’ e blocos mantêm viva a chama do Clóvis, como também é conhecida a tradição.
“Em Itaguaí, o que segura o carnaval é o Bate-bola”, diz o folião Luciano Rodrigues, líder da turma mais premiada do carnaval itaguaiense, a “Turma do Luciano Fininho”. “Já estamos há 19 anos juntos e já fomos campeões cinco vezes”, relembra. “Em Itaguaí existem sete turmas. Sempre no dia de sair fazemos um churrasco juntos. A rivalidade é só na hora dos concursos. O que queremos é manter a tradição viva”, conta.

ESPÍRITO VIVO

Muito se ouviu sobre a extinção do Bate-bola. A pesquisadora Aline Gualda, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), é mestre em Artes e se dedica ao estudo da tradição do Clóvis desde 2006. Por e-mail, ela contestou essa informação. Segundo ela, ao observar as ruas dos bairros onde existe a tradição, o que se nota nas épocas de festa é justamente o contrário. “Não há dados oficiais que demonstrem haver uma diminuição do número de brincantes. Ao contrário, ao circular nas ruas de alguns bairros das zonas norte e oeste do município do Rio, bem como pelos carnavais de municípios circundantes, pode-se ter a sensação de que esta manifestação está muito viva e latente, até mesmo em expansão”, enfatiza.
Apesar disso, Luciano relata dificuldades: “Uma fantasia de Bate-bola é cara. Gastamos em média R$ 1,5 mil. Dependendo da fantasia, se gasta até 160 metros de pano e ainda tem a mão de obra. Nem sempre é fácil para as pessoas fazerem”, lamenta. Contudo, o espírito da brincadeira permanece vivo: “O mais legal é a tradição da máscara e de mudar a voz. A intenção é que o próprio amigo que está brincando comigo não me reconheça. O bom do Bate-bola é a curiosidade. No final de tudo, quando a gente tira a máscara, vem a surpresa”, explica Rodrigues, que já brinca há 28 anos nos carnavais.

MUDANÇAS

Em todas as terças-feiras de carnaval, as melhores fantasias nos quesitos individual e em grupo são premiadas pela prefeitura. Além disso, existem prêmios para os melhores grupos. “Cada ano escolhemos um enredo diferente para a turma. Já fomos campeões com os temas Caverna do Dragão, Palhaço, Horoscopo e outros”, enumera Luciano.
Ao longo dos anos, algumas características do Bate-bola mudaram. Antigamente era comum os foliões saírem com bexigas de boi amarradas a uma corda ou a uma vara batendo-a no chão. Com o tempo, elas foram substituídas, conforme ressalta Luciano: “a maioria do pessoal não usa mais a bexiga, mas sim uma alegoria de mão”. A pesquisadora explicou que foi devido a essas bexigas que surgiu o nome da tradição e afirma que o Bate-bola continua em constante processo de reformulação: “As características mais constantes têm sido o uso da máscara, de roupas fartas e complementadas por acessórios como a bexiga cheia de ar, o caráter coletivo da brincadeira e o aspecto cômico e competitivo das performances dos grupos de bate-bolas. Mas a estética das roupas, o modo como os grupos se organizam, as formas através das quais dão corpo às suas competições vêm mudando constantemente”, esclarece Aline.
Juntas no propósito de manter viva e forte a tradição do Bate-bola, as turmas estão aí. Seja a do Luciano Fininho ou a do Valtinho da Capoeira. A Turma do Morro do Saci ou a Turma do Bodão. Não poderiam faltar as turmas da Reta, do Márcio e Natinho, Hugo e Carlinho e a Turma do Coqueiral. Que venham as festas e que se mantenha viva a tradição! (colaborou Ramon César)

DO SEU arquivo pessoal, Luciano exibe imagens de bons tempos do Bate-bola

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