Aug 23, 2017 Last Updated 4:06 PM, Aug 23, 2017

A incansável busca de uma mãe pelo filho morto ou vivo

Claudia Regina conta com apoio do MP e da DH e já foi mais de dez vezes aos IMLs de vários lugares Claudia Regina conta com apoio do MP e da DH e já foi mais de dez vezes aos IMLs de vários lugares FOTO CLEITON BEZERRA
Publicado em Polícia
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O filho de Claudia Regina dos Santos desapareceu no dia 11 de maio. Desde então, ela o procura em toda parte

Dilceia Norberto

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PEREGRINAÇÃO Quando a história começou, em 2014, não se podia imaginar um final feliz. Mas nunca se teria ideia de uma busca incansável, mas também infrutífera até aqui. Assim tem sido a história de Claudia Regina Silva dos Santos, de 40 anos. Comerciante, mas acima de tudo, uma mãe que quer encontra seu filho. Vivo ou morto.

Lucas dos Santos Honorato, de 20 anos, filho mais velho de Claudia, está desaparecido desde o dia 11 de maio deste ano. Ele foi visto pela última vez nas proximidades do Clubinho, no centro da cidade de Itaguaí. O jovem pode ter sido vítima de seu envolvimento com o tráfico de drogas da cidade.

A própria Claudia Regina afirma que seu filho usava maconha e andava em más companhias. “Nós protegemos o Lucas de várias maneiras. Ele teve herpes encefálica e tomava remédios controlados como Gardenal. Esses remédios são muito fortes e ele ficava dopado, então nós ficávamos tomando conta, até para ele não usar drogas. Ele ficou três meses apreendido no Instituto Correcional Padre Severino quando tinha 14 anos, por invadir a Escola Municipal Senador Teotônio Vilella. Eu sei que o Lucas andava com o pessoal da criminalidade por ter sido criado junto com os outros , naquele local. Mas eu acredito que meu filho não trabalhava na boca de fumo. Eu sei que ele usava drogas”, conta Claudia.

EXTORSÃO

Durante a Copa do mundo de 2014, em uma festa no centro da cidade, um disparo de arma de fogo foi efetuado e tentaram esconder a arma. O revolver desapareceu e tal desaparecimento foi atribuído a Lucas. A partir daí, os traficantes passaram a cobrar o valor da arma de Claudia, mãe do jovem.

“Na Copa do mundo, ele saiu com a bicicleta e nós encontramos com ele. Eu mandei ele ir para casa, mas os meninos, que eu não conhecia, disseram que ele iria depois porque estava esperando uma namorada. Ele chegou em casa cerca de uma hora e meia depois, sem a bicicleta. Ele disse que tinha emprestado. Três dias depois começaram a falar que ele tinha perdido uma ‘peça’. Eu pensei que’ peça’ fosse droga. Eu realmente não sabia o que era. Então, vieram me cobrar o valor de R$ 5 mil por essa ‘peça’, que eu vim a descobrir que era um revolver calibre 32”.

Claudia forçou o filho a contar o porquê de ele ter desaparecido com a arma e, segundo ela, Lucas disse que tinha entrado num lugar perto da feira e passou a arma para o outro lado. O rapaz contou à mãe que a polícia teria entrado no local, mas não sabia se os policiais haviam pegado o revolver. “Eu perguntei a ele porque que ele fez isso. Ele disse que o pessoal pediu para ele fazer aquilo porque ele era magro e pequeno e passava pelo buraco”, contou Claudia.

A extorsão durou até o mês de agosto de 2014, quando o Ministério Público recebeu uma denúncia de que estava havendo crime de ‘saidinha de banco’ na agência do Banco do Brasil. Policiais do Grupo de Apoio aos Promotores (GAP) ficaram de tocaia e observaram a movimentação e agitação de Claudia, que tentava pagar mais uma parcela da extorsão pelo desaparecimento da arma de fogo. Quando dois homens se aproximaram dela, os agentes deram voz de prisão e todos foram levados para a 50ª DP (Itaguaí). Lá, a comerciante teve que contar o que de fato estava acontecendo.

“Foi marcado um dia para pagar a extorsão. Eu paguei um valor de R$ 1 mil. Depois disso, os criminosos ficaram em cima querendo o restante do dinheiro. Passamos a receber vários telefonemas pressionando para pagarmos o restante do valor. Até que marcaram para eu pagar mais uma parcela na feira. Ninguém apareceu para eu dizer que não tinha conseguido o dinheiro. Depois eu marquei para entregar o dinheiro no banco”, esclarece.

Os criminosos apareceram, mas Claudia disse que não tinha conseguido o dinheiro. Tudo que ela tinha eram R$ 50. Ela pediu a um dos bandidos que ficasse com R$ 40, porque ela ia precisar de R$ 10 para a passagem. Neste momento, os agentes do GAP apareceram.

Na delegacia, Claudia teve que contar o que de fato estava acontecendo e provar que não tinha envolvimento com o tráfico de drogas. Alguns envolvidos no caso foram presos e condenados pela Justiça.

Claudia acredita que o desaparecimento do filho esteja relacionado com uma audiência judicial de um dos envolvidos no caso, no dia 10 de maio. “No dia 11, Lucas recebeu uma mensagem como se fosse de uma menina insistindo muito para ele ir. Ele foi e nunca mais apareceu”, lamenta a mãe.

BUSCAS

A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) está investigando o caso. Isso porque, apesar de não haver um corpo, é lá que fica o setor de desaparecidos. Desde o desaparecimento, Claudia já foi ao IML de Campo Grande três vezes, quatro vezes no centro do Rio, duas vezes no IML de Angra dos Reis e duas vezes no de Nova Iguaçu. “Eu fui a todos os hospitais. Só não fui dentro de favelas. Mas eu pergunto às pessoas se não viu algum menino assim (aponta para a camisa com a foto do filho). Mas ninguém nunca viu. É impossível que ninguém tenha visto alguma coisa”, ressalta a mãe desesperada para encontrar o filho.

A polícia tem feito buscas para encontrar o corpo de Lucas pela cidade de Itaguaí. A primeira busca foi realizada no dia 17 de maio. A segunda, no dia 20 do mesmo mês. A última busca foi feita no dia 9 de junho. Todas essas buscas foram feitas a partir de ligações e bilhetes anônimos sobre o local onde estaria o corpo.

“Recebemos uma ligação, avisando que o pessoal do tráfico sairia do local, para que a polícia fosse buscar o corpo. Depois apareceu um mapa no portão, indicando o local do corpo. Falaram que ele estava numa cova rasa, com um pé para o lado de fora e com uma sunga preta e que era para irmos lá. Nós andamos 157 quilômetros dentro do canal e não tinha absolutamente nada. Depois recebemos um outro bilhete dizendo que talvez o corpo do Lucas esteja na Reta. Eu conversei com o DPO e ele disse que faria as buscas. Eles disseram que fizeram as buscas, agora em junho, mas eu não vi viatura alguma da PM no local”, conta Claudia.

AUTORIDADES

Claudia alega estar sofrendo coação por parte dos envolvidos no caso de extorsão. O caso foi registrado na 50ª DP. “É um caso muito complexo. Existem pontos bem confusos em toda essa história. Sabemos que há um fato: o filho dela desapareceu. O desaparecimento está sendo investigado na DH. Aqui vamos investigar o caso de coação”, disse o delegado titular da 50ª DP, Alexandre Leite, que ainda acrescentou que nesses casos, depois de certo tempo, é muito difícil encontrar um corpo.

Para o MP, a história de Claudia também é, em certo momento, confuso, mas alguns fatos são irrefutáveis como o desaparecimento do filho. “O MP tem feito de tudo para ajudá-la a encontrar o filho. Mas acreditamos que as pessoas estejam enganando ela. Qual o interesse de um traficante matar alguém, esconder o corpo e depois revelar onde escondeu tal corpo? Isso não passa de trote. Mas a ajudamos no que é possível”, diz um agente do GAP.

Claudia tem pouca esperança de encontrar Lucas com vida, mas continua a busca pelo filho. Vivo ou morto.

 

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