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May 22, 2018 Last Updated 1:15 PM, May 22, 2018

Inea suspende por 15 dias dragagem na Baía de Sepetiba

Boto é encontrado morto na Praia da Pescaria Velha, na Baía de Sepetiba Boto é encontrado morto na Praia da Pescaria Velha, na Baía de Sepetiba FOTO MÁRCIO ALVES / AGÊNCIA O GLOBO
Publicado em Cotidiano
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Em nota, o Inea informa que serão solicitadas a colaboração das Prefeituras de Itaguaí e de Mangaratiba e também da Capitania dos Portos

BOTOS- O Instituto Estadual do Ambiente (Inea), em reunião na tarde desta terça-feira (23), decidiu suspender por 15 dias uma dragagem da Vale na Baía de Sepetiba. A ação surge após a morte de cerca de 150 botos-cinza até agora no local, devido a um surto de morbilivirose — que afeta cérebro, pulmões e sistema imune dos cetáceos.

O Ministério Público Federal (MPF), na segunda-feira da semana passada, tinha dado um prazo de 72 horas para que o instituto revogasse espontaneamente a licença para a atividade até “a completa normalização” da situação. E, hoje pela manhã, o procurador da República Sergio Gardenghi Suiama chegou a ameaçar entrar com uma ação na Justiça contra o órgão caso não fosse determinada a paralisação.

Em matéria do O Globo, o procurador da República, Sergio Gardenghi Suiama, falou sobre que medidas ele achava adequado de serem aplicadas no caso. “A nossa proposta é que a suspensão dure ao menos 30 dias. Até lá, verificaremos se a mortandade terá reduzido ou parado. As dragagens, conforme relatórios do Laboratório de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos da UFRuralRJ, gera barulho que interfere na alimentação dos botos. E, ao revolver o fundo, mesmo com um sistema moderno, levanta sedimentos de metais pesados que estão na baía, entre eles o cádmio, que é imunodepressor e contribui para piorar o quadro atual”, disse Suiama antes da decisão do Inea.

Em nota, o Inea informa que "a Secretaria de Estado do Ambiente e o Inea irão solicitar a colaboração das Prefeituras de Itaguaí e de Mangaratiba e também da Capitania dos Portos para que sejam adotadas medidas que visem a reduzir atividades que possam estar contribuindo para aumentar o nível de estresse dos botos".

POLUIÇÃO

Biólogos da Uerj e do Instituto Boto Cinza afirmaram que, embora a mortandade tenha como causa da morbilivirose, a poluição da Baía de Sepetiba contribui para que o surto seja mais letal ali do que na Baía da Ilha Grande, por exemplo, primeiro lugar onde a doença foi identificada no litoral fluminense, com cerca de 60 botos mortos desde novembro.

Embora a transmissão do morbilivírus não tenha relação com a contaminação das águas, os biólogos explicaram que a doença é mais fatal em bichos com baixa imunidade, assim como reduz a resistência dos indivíduos infectados. Com o estresse ambiental em Sepetiba, lembrou Leonardo Flach, do Instituto Boto Cinza, nos últimos anos já vinha sendo observado um grande número de animais magros, debilitados por doenças parasitárias e de pele e, portanto, mais suscetíveis aos efeitos da morbilivirose. Do mesmo jeito que, uma vez adquirido o vírus, os botos ficam sujeitos a enfermidades oportunistas, muitas delas causadas pela poluição.

Nesse cenário, uma das principais fontes de contaminação da Baía são os metais pesados, lançados há décadas nesse trecho de mar entre a Zona Oeste do Rio e os municípios de Itaguaí e Mangaratiba. E as dragagens, afirma o oceanógrafo Mauro Gerales, da Uerj, pode revolver esses sedimentos depositados no fundo da baía.

Em estudos que ele realizou na região, ele identificou áreas com anomalias de concentração de metais sobretudo nos arredores do porto de Sepetiba e na barra do Rio Guandu. Para o cádmio, por exemplo, foi observada uma concentração maior nas proximidades do Saco do Engenho e do Rio Guandu. Mas também observou-se a presença de zinco, chumbo, ferro, cobre, vanádio, cromo, cobalto e níquel na baía.

 

“O problema, no entanto, é não só a dragagem”, afirma o procurador Suiama. “É também uma postura do Inea como órgão ambiental e corresponsável pelas atividades na baía. Parece que não caiu a ficha da gravidade do problema, que pode exterminar 70% da população de botos da região. A causa da morte é o vírus. Só que precisamos tornar o ambiente menos inóspito para o boto. A única coisa que o Inea fez até agora é ajudar a recolher cadáveres. Só ontem morreram três”, criticou ele.