Aug 18, 2017 Last Updated 4:08 PM, Aug 18, 2017

O projeto da granja dos ovos de ouro

A produtora no meio de sua horta, que serve de alimento para as galinhas, cujo esterco aduba a horta. A produtora no meio de sua horta, que serve de alimento para as galinhas, cujo esterco aduba a horta. FOTO ARQUIVO PESSOAL
Publicado em Cotidiano
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Moradora de Mazomba muda a vida com empreendimento de criação de galinhas premiado pela Vale

Dilceia Norberto
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SAINDO DA CASCA Já diz o velho ditado: ‘de grão em grão, a galinha enche o papo’. E foi mais ou menos assim que Fernanda Chagas Medeiros Isobe encheu sua vida de motivação e graça. Não foi bem de grão em grão, mas de ideia em ideia, projeto em projeto, apoio em apoio e de galinha em galinha. A ex-servidora da Prefeitura de Itaguaí e dona de casa, mãe de Miguel, de 4 anos, criou um projeto vencedor, depois de acompanhar amigos num curso de empreendedorismo.

Fernanda fez um curso promovido pela Puc-Rio e financiado pela empresa Vale, no Cefet.    O projeto de Fernanda não existia. “A maioria das pessoas que estava lá já tinha seu empreendimento e eu fui mais para acompanhar. Eu acabei gostando, porque achei o curso bem interessante. Eram aulas bem práticas e os alunos faziam as atividades em cima do que já tinham. Eu não tinha nada. Então eu pensei em algo ligado à galinha. Porque eu sempre quis criar galinha, mas nunca tinha colocado a mão numa galinha viva”, contou a nova empreendedora.

O PROJETO

Fernanda diz que começou a pesquisar e pensou que queria uma galinha diferente. “Pensei na agroecologia. Queria o esterco da galinha, para servir de adubo na horta que serve de alimentação para a galinha”, disse ela, que junto com o marido planta bastante verdura no sítio da família. “Alface, brócolis, couve, cheiro verde, coentro. Plantamos também berinjela, jiló, quiabo, beterraba e nós fazemos feira com esses produtos”, relata.

O projeto é para 600 galinhas, mas por enquanto elas são 400, criadas livres num sítio em Mazomba. O projeto apresenta um escalonamento. Enquanto um grupo cai de produção, o outro está a plenos vapores, porque as galinhas têm idades diferentes. Assim, o terceiro lote ainda não entrou em ação. O projeto é de galinha-caipira poedeira, mas como é agroecológico, depois que as galinhas param de produzir, são vendidas para corte. E isso acontece por volta dos dois anos de idade das aves.

“Aqui, trabalhamos eu e o meu marido. É muito simples. De manhã a gente acorda, abre a cortina e dá a ração e abre o acesso para elas ciscarem, elas ficam livres, a gente dá a alimentação. Eu entro para colher os ovos umas quatro vezes por dia. Tiramos em média 180 ovos diariamente”.

O esterco da galinha é usado para adubo da horta, que serve de alimento para as galinhas. É uma galinha diferente das convencionais, por causa da alimentação. Isso é agroecologia sustentável. “Fiz um projeto em que eu mesma produzo a ração. Já plantei milho, quero plantar guandu, porque esses alimentos têm todas as proteínas que a galinha precisa. Foi esse meu projeto. Eles selecionaram quatro de Itaguaí e quatro de Mangaratiba. Só que o meu, era uma coisa que ainda não existia e o pessoal da seleção hesitou muito, porque como é que você vai ajudar uma coisa que ainda não existe? Eles achavam muito arriscado”, conta a empreendedora. Mas com o que Fernanda foi apresentando, eles foram se convencendo cada vez mais da qualidade do esquema. Ela fez estágio na Rural, recebeu orientação do pessoal da Emater e acabou ganhando o capital-semente ofertado pela Vale.

OS AMIGOS

A produtora conta que muitos amigos a ajudaram nesse trabalho. O projeto vencedor de Fernanda precisava de investimento para estruturar algumas coisas, porque só o projeto consumia quase todo o capital-semente. O apoio da família e do marido Michael, que deixou o trabalho no porto para apoiá-la, foi fundamental. Ela foi pedindo a um e a outro e o então vereador Jailson Barboza forneceu a mão de obra para construção da estrutura. Todo o processo começou em 2015 e a inauguração da Granja Alvorecer, a do projeto de Fernanda, foi inaugurada no último dia 24.

GENESIS

O instituto Genesis, da Puc-Rio, foi contratado pela Vale para dar esse curso e acompanhar os empreendedores. Eles ensinam toda a parte de gestão, planejamento e de dois em dois meses eles dão um workshop.

TEM DADO CERTO?

“Sim”. Por enquanto, Fernanda não tem o selo de qualidade. Esse selo é um certificado de inspeção é dado pelo estado, já Itaguaí não possui o serviço.  “Infelizmente ainda não tenho previsão de quando vou conseguir o selo. Como eu não entendia nada, eu bati em muita porta errada para tirar o selo. Agora é que as coisas estão começando a caminhar. Mas graças a Deus as vendas estão indo bem. Faço entregas para consumidores que me pedem pelo whatsApp. Vem muita gente aqui também. No outro dia veio gente de Bangu”, comemora a produtora de Mazomba.

TRANSFORMAÇÃO

O projeto da granja mudou completamente a vida da família Isobe. “Quando tive meu filho, eu pedi exoneração da prefeitura porque não tinha com quem deixa-lo. Eu já tinha me conformado de que não ia trabalhar mais, de que seria do lar. Aí, o curso veio e mudou. Eu sempre trabalhei. E ia chegar uma hora que eu ia sentir falta, mas já tinha aceitado que não ia trabalhar mais. Aqui é um lugar que não vinha ninguém. Agora vem bastante gente. É muito mais movimentado agora. Eu estou mais feliz, porque eu acredito que tudo na minha vida é Deus e se Ele me deu essa oportunidade, eu tenho que agradecer e agradeço a todo mundo que me ajudou. A minha vontade era sair daqui, porque não tinha nada. E Deus falou assim: não. É aí mesmo que você vai ficar. Eu olho e nem acredito que tive capacidade de fazer o que fiz”, comemora Fernanda.