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Jul 19, 2018 Last Updated 12:59 PM, Jul 18, 2018

Charlinho tem motivos para comemorar

Publicado em Poder
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Quem celebra 200 anos é Itaguaí, mas quem ganhou o presente foi o prefeito

 Nos últimos 12 anos, baseado em informações dadas à Justiça Eleitoral, Charlinho multiplicou o seu patrimônio em mais de 2.100%

 Como uma amostra comparativa, para melhor entendimento do leitor, o prefeito de Itaguaí, Carlo Busatto Junior, o Charlinho,  é 31 vezes mais rico que o ex-governador Sergio Cabral.

 Itaguaí se depara com um caso prodigioso de um ator político que em 12 anos conseguiu multiplicar em 21,25 vezes, ou melhor dizendo, aumentou em cerca de modestos R$ 25 milhões o seu patrimônio declarado à Justiça Eleitoral, o que o posiciona como um dos políticos mais ricos do estado.

Charlinho conseguiu a proeza de desbancar nomes como o de Sérgio Cabral, preso pela Lava Jato, e que declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 843 mil. Isso significa que Charlinho é 3.104,78% mais rico que Cabral, ou seja, tem 31,05 vezes mais bens declarados que o ex-governador do estado do Rio de Janeiro.

Quando candidato pela primeira vez em Itaguaí, em 2004, Charlinho registrou no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) possuir bens no valor de R$ 1.231.497,80 (Um milhão, duzentos e trinta e um mil, quatrocentos e cinquenta e quatro reais e oitenta centavos). Quatro anos depois, em 2008, seu patrimônio saltou para R$ 4.027.754,73 (quatro milhões, vinte e sete mil, setecentos e cinquenta e quatro reais e setenta e três centavos), um acréscimo de 327,06% em quatro anos e pasmem, milagrosamente, em 2016, registra possuir R$ 26.173.303,80 (vinte e seis milhões, cento e setenta e três mil, trezentos e três reais e oitenta centavos).

Todos esses números significam que de 2004 a 2016, o prefeito de Itaguaí aumentou o seu patrimônio em 2.125,33%, ou seja, em R$24.941.806 (vinte e quatro milhões, novecentos e quarenta e um mil e oitocentos e seis reais).

 

Terrenos e sociedades

O que muito surpreende nas declarações do prefeito Charlinho, é que mesmo com esse aumento gigante em seu patrimônio, ele continua a declarar possuir os mesmos bens imóveis, que, diga-se de passagem, são totalmente subdimensionados. Veja você, por exemplo, que segundo Charlinho, ele possui 50% de um terreno em Muriqui, que vale R$ 2,44 (dois reais e quarenta e quatro centavos). Ou seja, a parte que lhe cabe no terreno de Muriqui vale R$ 1,22 (um real e vinte e dois centavos).

Analisando a declaração de 2004, a única empresa em que ele se declara como sócio é a Internautica Call Center, possuindo 50% das cotas ao valor de R$ 50 mil.

Já na declaração de 2016, o prefeito informou aportar R$ 350 mil no capital da mesma empresa, a única que ele tem declarada com atividade comercial.

As outras empresas de Charlinho são destinadas a incorporação e empreendimentos imobiliários de imóveis próprios ou para participação societária em outras empresas e para consultoria em investimentos.

No ano de 2008, Charlinho declara sua segunda empresa, a Serramar Empreendimentos e Participações se dizendo possuidor de 997.500 quotas ao valor total de R$ 1.797.500,00 (um milhão, setecentos e noventa e sete mil e quinhentos reais). Esta empresa, diga-se de passagem, é um dos seus elos diretos de ligação com o presidente licenciado da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jorge Picciani, que está em prisão domiciliar em decorrência da Operação Cadeia Velha, deflagrada pelo Ministério Público Federal.

A Serramar tem 20% do capital social da Empresa Brasileira de Mineração Coromandel, ou R$ 5.438.860,00 (mais de cinco milhões de reais), onde Jorge Picciani e sua família possuem, juntos, outros 20% do capital social. Ou seja, Charlinho é sócio da família Picciani através da empresa Serramar, de Charlinho, e da Cormandel, dos Picciani.

 

O milagre da multiplicação

Repare somente no valor do capital social da Serramar. Em quatro anos Charlinho conseguiu abrir uma empresa com um montante equivalente a uma vez e meia ao que tinha declarado antes. Aí começa o milagre da multiplicação.

O único bem que o prefeito de Itaguaí possivelmente se desfez entre uma declaração e outra foi um apartamento na Avenida do Pepê – que em 2004 disse ser na Freguesia, Jacarepaguá – no valor de R$ 500 mil. E tem mais: surge em 2008, além da Serramar, um montante de R$ 802 mil em investimentos – dinheiro “vivo” – ; além de uma cobertura na Avenida do Pepê, agora sim, confirmando ser na Barra da Tijuca, no valor de R$ 1 milhão. Chama atenção o valor declarado por Charlinho pelo seu imóvel sendo que o de outro no mesmo condomínio ultrapassa os R$ 4 milhões.

 

Empresas podem ocultar verdadeiro patrimônio

A declaração de Charlinho em 2016 é uma ofensa aos olhos do trabalhador honesto que com dificuldade mantém o que tem, ou no máximo consegue guardar algum valor na poupança, refém das taxas medíocres de rendimento, que nunca alcançam sequer 1% ao mês.

Sua declaração em 2016 é mesmo surpreendente. Como num passe de mágica surgem outras cinco empresas com capitais sociais astronômicos e quase todas com o objeto social voltado à administração de bens próprios. Uma delas surge para, exclusivamente, participar da sociedade de uma outra. É um emaranhado de empresas se ligando no capital social da outra dando a nítida sensação de servir, unicamente, com o propósito de confundir.

A reportagem do Jornal Atual não conseguiu, ainda, elencar quantos são, quais são e qual o valor correto e total dos bens imóveis vinculados nessas empresas, mas, para existir tantos CNPJs com o fim de cuidar de bens próprios, concluímos que o valor deva ser bem superior ao declarado pelo prefeito, considerando que ele subdimensiona o valor de seus bens.

Para se ter uma ideia, em 2017, a Serramar vendeu para uma incorporadora um imóvel no bairro Weda por R$ 7 milhões. Essa quantia equivale a quase um terço do que Charlinho declarou na sua última eleição. E existem tantos outros imóveis ligados direta e indiretamente ao prefeito.

 

Filha, que trabalha na Alerj, é quem administra as empresas

Charlinho alterou no final de 2016 e início de 2017 todos os contratos sociais de suas empresas e passou o bastão da administração a filha Bruna Busatto, que é, também, sócia direta em três dessas empresas e indiretamente nas demais, a exceção da Internautica e da Coromandel.

Apesar de tanta responsabilidade assumida nas empresas milionárias do pai, Bruna, ainda, ocupa o cargo de Subdiretor Geral Cerimonial na Alerj, que exige 40 horas semanais de dedicação. Nomeada no dia 2 de fevereiro de 2015, quando Picciani voltou a assumir a presidência da Casa Legislativa, Bruna, que, no cadastro no site da Alerj ainda aparece com o nome de casada, recebe bruto mais de R$ 31 mil, com os descontos chega a R$ 22.360,41, líquido, um dos maiores salários da Alerj. Só de imposto, no mês de abril, ela pagou R$ 7.339,41. Bruna ganha mais que um deputado estadual, que tem salário líquido em torno de R$ 19 mil.

 

Só de capital social Charlinho tem R$ 45 milhões

Ao analisar todas as sete empresas onde Charlinho tem participação societária direta e indiretamente, a soma nominal do capital social que lhe confere, incluindo aí o valor da filha Bruna, atinge o montante de R$ 45.208.220,00 (quarenta e cinco milhões, duzentos e oito mil e duzentos e vinte reais). Somando este valor com o restante de bens declarados em 2016, o prefeito tem uma riqueza mensurável que ultrapassa a quantia de R$ 51 milhões. Isso, até onde sabemos já que toda essa estrutura envolve muitos atores que permanecem apenas nos bastidores.

A CB (Carlos Busatto) Empreendimentos Imobiliários – fundada em 2011, no penúltimo ano do mandato de Charlinho a frente da prefeitura de Itaguaí – declara possuir R$ 15 milhões de capital social. Já na CBJ (Carlos Busatto Junior) Investimentos e Participações, fundada em 2013, um ano após Charlinho deixar a prefeitura, Charlinho declarou ter de capital social R$ 18 milhões – aliás, como surgiu essa fortuna? –, sendo ele detentor de 95% das cotas e sua filha, Bruna, 5%. A CBJ, empresa 95% de Charlinho, é sócia majoritária da CB juntamente com ele e Bruna.

O que justifica essa manobra?  Não para aí: a Serramar (apesar de ter sido fundada em 2001, apenas em 2008 Charlinho declarou ser seu sócio) tem composição societária 3,98% para Charlinho, 1,02%  para Bruna e 95% para CBJ. Seu capital social está registrado em R$ 2.890.000,00.

A Serramar, que tem participação societária na Coromandel dos Picciani, tem, também, na ACP Capital e Participações – fundada em 2007 – 95% de cota sendo o Charlinho detentor dos demais 5%. Esta artimanha, no mínimo, é estranha, pois ao retirar recurso de uma empresa para repassar para uma outra o certo seria subtrair da cota da empresa cedente o valor correspondente ao que foi repassado, o que não ocorreu. Isso quer dizer que novo dinheiro surgiu de um negócio para investir em um outro.

A BF Sociedade e Participações – fundada em 2012, último ano de mandato – surge para tão somente participar da AMP Empreendimentos e Incorporações – de 2011 – e a sociedade, então, fica assim descrita: BF, 90% pertencentes a CB e os demais 10% a FBC 2007 (empresa pertencente ao ex-marido de Bruna) e a AMP 1% Charlinho e 99% BF.

 

Charlinho se confunde na declaração

Ao avaliar a declaração de bens que o Charlinho informou ao TRE em 2016, percebe-se que ele cometeu dois erros, talvez, por falta de atenção ou, até mesmo, em consequência da grande quantidade de empresas que giram pelo seu CPF.

O primeiro erro foi declarar menos R$ 50 mil da cota de participação na empresa CB Empreendimentos Imobiliários e Participações. Com capital social de R$ 15 milhões, Charlinho, tem 4% de participação direta nesta empresa, porém declarou ter R$ 550 mil em quotas, ao invés de declarar R$ 600 mil.

A outra confusão foi informar que possui 85 mil cotas da empresa BF Sociedade de Participações Imobiliárias, equivalendo em dinheiro a R$ 85 mil, quando quem são os sócios na verdade, segundo o contrato social, são a CB empreendimentos, com 90% de participação, e a FBC 2007 Participações com os 10% restantes. O CPF dele não está na sociedade que declara ser sócio pessoa física.

O emaranhado das empresas do Charlinho, descrito acima, pelo jeito, confunde até ele mesmo!