Oct 24, 2017 Last Updated 2:00 AM, Oct 23, 2017

Oportunidade de vida no Djalma Maranhão

A equipe do Ceja Itaguaí. A partir da esq.: Paulo Cesar, Anab, Ana Lucia, Margarida, Miriam, Marilda e Cristiane. Agachados: Paulo Henrique e Flavio A equipe do Ceja Itaguaí. A partir da esq.: Paulo Cesar, Anab, Ana Lucia, Margarida, Miriam, Marilda e Cristiane. Agachados: Paulo Henrique e Flavio FOTOS CLEITON BEZERRA
Publicado em Cotidiano
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Para quem quer concluir os estudos, escola estadual de Itaguaí oferece programa do governo, mas com clima acolhedor

 

AVANTE É de conhecimento geral que a educação é a base de uma sociedade cada vez melhor. Mas em um país como o Brasil, embora a lei estabeleça que a educação é um direito de todos, nem todos têm a oportunidade para acessá-la como deveria. Ou no tempo que deveria. Para sanar várias questões sociais, o governo do Estado do Rio de Janeiro criou os Centros de Educação de Jovens e Adultos (Ceja). São escolas da Rede Estadual de Ensino do Estado do Rio de Janeiro, destinadas a jovens e adultos que estão fora da idade escolar e que desejam concluir o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Essa é a explicação geral. Mas em Itaguaí, o Ceja ganha uma atmosfera diferenciada. Com toda uma ambientação que não apenas dá continuidade aos estudos de quem procura, mas também apresenta um ninho acolhedor.

Esta é a impressão que se tem ao visitar a equipe do Ceja de Itaguaí, que funciona no Ciep 048 Djalma Maranhão, no bairro Vila Margarida. Toda a equipe fala com imensa animação de um trabalho que poderia ser mais uma função burocrática e fria, apesar de lidar com gente. É assim que se sente a professora de Sociologia e filosofia do Ceja, Cristiane Castilho. “Isso é aqui é uma família. Todos participam de tudo, porque o objetivo maior é o sucesso do aluno. Eu acredito muito nisso. Eu cheguei aqui e me dei conta de que cheguei no lugar certo. Aqui há uma dedicação que faz acontecer. Com o caos na educação, na cidade, você fazer o que você acredita é realmente um diferencial”, diz Cristiane.

RESGATE

Para o diretor do Ceja Itaguaí e Seropédica, Paulo Cesar Benvindo, o projeto dá oportunidade para que vidas sejam restauradas. “O Ceja é um resgate social, porque aquele aluno que não conseguiu terminar o ensino fundamental ou não conseguiu terminar o ensino médio por vários motivos. A menina pode ter ficado grávida, o menino teve que trabalhar, porque também foi pai. Nós começamos com o perfil de pessoas que só queriam pegar o certificado para o trabalhado. Mas eu digo sempre que o que fazemos é um resgate social dos nossos alunos.”.

Quando o professor Paulo Cesar fala dos alunos que começaram a buscar o Ceja apenas em troca de um certificado de conclusão de curso, ele lembra que isso teve um grande salto com a chegada dos grande empreendimentos em Itaguaí. Mais e mais pessoas precisavam de qualificação e foi isso que conseguiram. Mas pode-se dizer foi também o ponta pé inicial para a queles que queriam melhorar seu nível educacional e sua própria vida. “O aluno faz em quanto tempo ele quiser. Já tivemos alunos que fizeram o fundamental e o médio em um ano. Tivemos um aluno que era pedreiro e hoje ele faz faculdade de engenharia”, diz Benvindo.

ACOLHIMENTO

Outra que confirma a oportunidade de melhora de vida que o Ceja pode trazer é a aluna Renata Sabino, de 38 anos. Tendo interrompido os estudos ainda jovem, ela voltou e se sente muito bem no projeto. “A experiência no Ceja foi muito boa para mim, porque o período que eu fiquei desempregada eu pensei em voltar a estudar. Quando eu vim aqui, eu fui recebida com tanto carinho e ânimo, que despertou minha vontade de recomeçar. Eu comecei no ensino fundamental, consegui chegar ao ensino médio e agora faltam quatro provas para eu poder concluir o ensino médio”, afirma Renata.

Ela, que é mãe de cinco filhos, diz que já havia tentado voltar a estudar em outras ocasiões, mas não conseguia dar continuidade. “Aqui foi diferente. Não foi somente uma escola. Foi uma família que me abraçou e me deu tanta força que eu consegui estudar. E nesse período, eu tive a oportunidade de fazer um curso no Senai. Eu tive a oportunidade de ver outros caminhos para poder fortalecer o meu currículo”, comemora a nova Renata, que precisou sair para fazer uma das últimas quatro provas que vão culminar na sua conclusão do ensino médio.

MÉTODO

No Ceja, não existem aulas regulares como nas escolas tradicionais. O material didático é adquirido gratuitamente, em sistema de empréstimo, na escola ou no ambiente virtual de aprendizagem. O aluno estuda a seu tempo, retorna para tirar dúvidas e fazer avaliações. É possível estudar uma ou mais disciplinas por vez na ordem em que desejar. Os alunos sempre podem recorrer aos professores em caso de dúvidas.

Existem ainda as oficinas ligadas às disciplinas. Nelas, os alunos podem realizar atividades e ganhar bônus. Mas de acordo com os professores, as atividades prediletas dos estudantes são as atividades extra classes, como as oferecidas pela professora de artes, Ana Lucia Ramos, que afirma que os alunos gostam muito de participar e por isso, atuam com prazer.

Outro que defende as oficinas extra classes é o professor de Química e Física, Flavio Stefony. “Há uma troca de informações muito legal. Eles trazem a bagagem deles. São oficinas de fazer sabão, história sobre o município. Se perguntar aos nossos alunos, eles vão citar as oficinas extra classe como o momento predileto deles, porque há uma integração. Eles interagem bastante. Falam até mais do que a gente em termos de experiência de vida”, destaca o professor.

Apesar de não estarem nos ensino regular, os alunos também têm as semanas acadêmicas. Na área onde funciona o Ceja, no Djalma Maranhão, quem passava podia logo notar os enfeites com temáticos da Literatura de Cordel, objeto da Semana Literária deste ano. “A semana Literária já está no calendário do Ceja e este ano estamos trabalhando a literatura de Cordel, que é uma manifestação cultural. Trabalhou-se a oficina de xilogravura. A gente apresenta o tema e realiza as práticas que envolvem o tema”, explicou a professora de Língua Portuguesa, Marilda Nunes.

Outro projeto que enche os professores do projeto do Djalma Maranhão de animação é o projeto de leitura, que surgiu a partir da deficiência dos alunos em ler e interpretar textos. “O aluno vem, pega um livro e eu peço para ele trazer um depoimento sobre as impressões que ele teve do livro. Um comentário, um resumo. E a gente começa a ver como foi o progresso do aluno. O aluno pega da biblioteca da escola, mas pode sugerir um livro. Eu já observei progressos”, diz a autora do projeto Anab Cerqueira.

SUCESSO

Todos consideram o projeto um sucesso. Hoje o pólo de Itaguaí e Seropédica está com 1.400 alunos. “Já tivemos quatro mil alunos. Consideramos o projeto, atualmente, como um sucesso. Uma estatística, em termos de quantidade no Enem, mostrou que os Cejas foram os mais aprovados entre as escolas dos estado. Isso porque você não dá uma aula comum. Você obriga o aluno a estudar. Realmente ele tem que estudar. Hoje, temos psicólogos, engenheiros, tudo isso formados e que tiraram o ensino médio no Ceja. De 1998 para cá”, comemora o diretor Benvindo.

Para quem se interessar, o Ceja funciona no Ciep 048 Djalma Maranhão, de 13h às 21h. Pode ligar também para o telefone

Renata Sabino, de 38 anos, está prestes a concluir o ensino médio e diz que o Ceja é uma família

 

Dilceia Norberto

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